segunda, 13 de julho de 2026
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CONSULTÓRIO CHEIO PODE ESCONDER CAIXA VAZIO E DESAFIA PROFISSIONAIS DA SAÚDE

João - 13/07/2026 11:38

Agenda cheia, equipe trabalhando, pacientes entrando e um faturamento que parece indicar sucesso. No fim do mês, porém, falta dinheiro para pagar impostos, fornecedores, funcionários ou até mesmo as despesas pessoais do profissional. A contradição, que corresponde a uma realidade de muitas clínicas e consultórios, revela um problema ainda pouco discutido no setor: faturar muito não significa administrar bem, nem necessariamente obter lucro.

Segundo Catarina Lima, CEO da Referência Gestão de Saúde, um dos erros mais recorrentes é avaliar o desempenho do negócio apenas pelo valor que entra na conta. “O faturamento mostra o movimento financeiro, mas não revela, sozinho, a saúde da empresa. É possível ter uma receita expressiva e, ainda assim, operar com margens baixas, custos descontrolados, dívidas ou ausência de recursos para investir e crescer”, explica.

Mercado cresce e exige profissionalização – O alerta ganha relevância diante da expansão do mercado. A Demografia Médica no Brasil contabiliza cerca de 640 mil médicos em atividade no país, o equivalente a uma média de três profissionais para cada mil habitantes. O aumento da oferta de serviços amplia as possibilidades de atendimento, mas também torna o ambiente mais competitivo e exige maior profissionalização dos negócios de saúde.

Embora a formação técnica prepare médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e outros profissionais para cuidar de pacientes, nem sempre contempla conhecimentos sobre custos, tributos, precificação, indicadores ou planejamento empresarial.  À frente de uma empresa que, em mais de 16 anos, já prestou suporte a mais de 150 empresas de saúde e cerca de dois mil profissionais, Catarina Lima observa que muitos empreendedores confundem saldo bancário com dinheiro disponível.

“O valor que está na conta pode incluir impostos que ainda serão pagos, recursos destinados a fornecedores, folha salarial, manutenção de equipamentos ou compromissos futuros. Quando tudo é tratado como renda pessoal, o caixa perde previsibilidade e a empresa começa a viver de improvisos”, afirma.

Misturar contas mascara o resultado – Entre os sinais de desorganização estão a mistura das despesas pessoais com as empresariais, a inexistência de um pró-labore definido, retiradas sem planejamento, ausência de reserva financeira, desconhecimento dos custos de cada atendimento e precificação baseada apenas nos valores cobrados por concorrentes.

Também podem pesar no caixa os atrasos nos repasses de convênios, glosas, cancelamentos, períodos de menor movimento, parcelamentos concedidos aos pacientes e investimentos elevados em aluguel, estrutura, tecnologia, materiais e equipe. Sem acompanhamento, uma clínica pode aumentar o número de atendimentos e, paradoxalmente, reduzir a própria margem de lucro.

“Preço não deve ser definido apenas pelo que o mercado cobra. É preciso saber quanto custa manter a estrutura funcionando, quanto cada procedimento consome, qual é a carga tributária, qual margem permitirá reinvestimentos e quanto o negócio precisa gerar para permanecer sustentável”, destaca Catarina.

Novas exigências ampliam a responsabilidade – A necessidade de controle também cresceu com as obrigações fiscais. Desde 2025, médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais que atuam como pessoas físicas estão obrigados a emitir recibos pelo Receita Saúde. Os registros ficam armazenados eletronicamente e são utilizados nas informações fiscais do profissional e do paciente.

Para Catarina, a digitalização torna as movimentações mais transparentes e reduz o espaço para controles informais. “O improviso financeiro deixou de representar apenas um risco para o caixa e passou a ampliar também o risco fiscal. Recebimentos, despesas, documentos e tributos precisam conversar entre si. Quando cada informação está em um lugar diferente, aumentam as chances de erro, atraso e pagamento indevido”, pontua.

Gestão deve começar antes da crise – A especialista recomenda que o profissional acompanhe mensalmente indicadores como faturamento, custos fixos e variáveis, margem de lucro, inadimplência, contas a receber, carga tributária, desempenho dos serviços e necessidade de capital de giro. Também é importante projetar entradas e saídas, estabelecer um pró-labore compatível, separar integralmente as contas pessoais das empresariais e formar uma reserva para períodos de menor receita ou gastos inesperados.

Mais do que reduzir despesas, a organização permite identificar serviços rentáveis, planejar contratações, avaliar novos investimentos e tomar decisões com base em números, não apenas em percepções. “Gestão financeira não significa transformar o profissional da saúde em contador ou administrador. Significa dar a ele informações confiáveis para que possa cuidar dos pacientes sem perder o controle do próprio negócio. Uma empresa financeiramente saudável oferece mais segurança ao profissional, à equipe e à continuidade da assistência”, conclui Catarina Lima.

Crédito das fotos dela: Mahatma Belmonte

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