

A suspensão temporária da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan gerou dúvidas entre a população sobre a continuidade da vacinação no Brasil. No entanto, o Ministério da Saúde esclareceu que a medida não afeta a aplicação da vacina disponível atualmente no Sistema Único de Saúde (SUS), a Qdenga, produzida pela farmacêutica japonesa Takeda.
A vacina do Butantan vinha sendo utilizada de forma restrita em projetos-piloto e entre profissionais da atenção primária à saúde. Com a suspensão preventiva, pessoas imunizadas recentemente foram orientadas a observar possíveis sintomas adversos, principalmente nos primeiros 21 dias após a aplicação.
Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação com a Qdenga segue normalmente em todo o país.
Apesar de ambas utilizarem vírus vivos atenuados — enfraquecidos em laboratório —, os dois imunizantes apresentam diferenças importantes na composição e no esquema de aplicação.
A Qdenga foi desenvolvida a partir do sorotipo DENV-2 atenuado e utiliza essa estrutura para gerar proteção contra os quatro sorotipos da dengue. O imunizante já possui aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e integra o calendário de vacinação do SUS.
Já a vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan contém versões atenuadas dos quatro sorotipos do vírus da dengue e se tornou a primeira vacina brasileira criada contra a doença. O imunizante ainda estava em fase de implementação controlada.
Nos estudos clínicos, a vacina brasileira apresentou índices de eficácia superiores aos registrados pela Qdenga. Segundo os dados divulgados, o imunizante do Butantan alcançou 73,5% de eficácia em pessoas que nunca tiveram dengue e 89,2% em indivíduos que já tiveram contato com o vírus, além de eficácia geral de 79,6%.
A Qdenga apresentou 63% de eficácia contra casos sintomáticos da doença e 85% contra hospitalizações, com proteção avaliada por até 54 meses após a vacinação.
Outro diferencial apontado pelos especialistas está no esquema de aplicação. A Qdenga exige duas doses, com intervalo de três meses entre elas. Já a vacina do Butantan avançou para um modelo de dose única após estudos apontarem resposta imunológica semelhante à observada no esquema com duas aplicações.
Especialistas avaliam que a dose única pode facilitar campanhas de vacinação em massa e aumentar a adesão da população.
As vacinas também possuem diferenças em relação ao público-alvo. A Qdenga é indicada para pessoas entre 4 e 60 anos, independentemente de já terem contraído dengue anteriormente.
Já a vacina do Butantan foi testada em mais de 16 mil voluntários, com idades entre 2 e 59 anos, apresentando perfil de segurança semelhante nas faixas etárias avaliadas.
As investigações sobre 42 casos de reações adversas graves e duas mortes em apuração seguem sendo conduzidas pelo Ministério da Saúde, pela Anvisa e pelo Instituto Butantan. Até a conclusão das análises, a orientação é que pessoas vacinadas recentemente com o imunizante brasileiro procurem atendimento médico em caso de sintomas incomuns.
Foto: José Cruz/Agência Brasil