sábado, 30 de maio de 2026
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USO DE SEMAGLUTIDA EXIGE MAIOR ATENÇÃO SOBRE DOENÇAS OFTALMOLÓGICAS

João - 30/05/2026 08:30

Emagrecer. Você provavelmente conhece alguém que está nesta luta constante contra a balança. Contudo, a utilização de remédios da classe dos análogos de GLP-1, como a semaglutida pode ser mais prejudicial e menos aliada na busca pelo corpo ideal.

O uso crescente desses medicamentos para perda de peso, muitas vezes motivado pela automedicação ou pela busca por resultados estéticos rápidos, exige uma vigilância muito mais estreita. O que muitos ignoram é que mudanças drásticas no metabolismo podem alterar diretamente a pressão intraocular e a vascularização da retina, transformando o sonho do emagrecimento em um risco silencioso para a saúde dos olhos.

Para quem planeja realizar a cirurgia de catarata, por exemplo, essa nova fase exige uma vigilância mais cautelosa, garantindo que o emagrecimento acelerado seja seguro e sem danos à visão. O cenário exige uma abordagem terapêutica integrada que considere o impacto das mudanças metabólicas no globo ocular.

Recentemente, o tema ganhou destaque na cidade do Rio de Janeiro com a inauguração do Super Centro Carioca de Saúde da Zona Oeste, em Campo Grande. A unidade abriga o Centro Especializado em Obesidade e Metabolismo (CEOM) e marca o início da oferta de semaglutida pelo SUS para pacientes com obesidade grau 3 e comorbidades.

A iniciativa foca em um público de alto risco, como pessoas com IMC acima de 40 e que apresentam diabetes ou hipertensão e exige seis meses de acompanhamento prévio e exames mensais. Estima-se que 130 mil pessoas na capital fluminense possuam o perfil, com a faixa etária de 18 a 25 anos sendo a  mais presente no grupo.

As alterações drásticas nos níveis glicêmicos e na pressão arterial, comuns no emagrecimento acelerado, podem modificar a vascularização da retina e a pressão intraocular. De acordo com o oftalmologista Ricardo Filippo, da COI Oftalmologia, a instabilidade sistêmica pode interferir diretamente no sucesso de intervenções cirúrgicas. “As mudanças metabólicas rápidas provocadas por esses medicamentos podem alterar a dinâmica dos fluidos oculares e a perfusão da retina. É essencial que o paciente reporte o uso dessas substâncias ao seu médico, pois o controle sistêmico instável pode comprometer o resultado de uma cirurgia como a de catarata, que tecnicamente seria um procedimento simples“, alerta o especialista.

A análise reforça que a transparência no pré-operatório é o que garante a previsibilidade do resultado. Ao compreender as flutuações metabólicas do paciente, é possível ajustar o cronograma cirúrgico para um momento de maior estabilidade, evitando complicações inflamatórias ou vasculares no pós-operatório que poderiam prejudicar a recuperação.

O estudo conhecido como Alerta de Harvard

Um estudo conduzido por pesquisadores vinculados a Harvard e publicado na JAMA Ophthalmology acendeu um alerta na comunidade médica. A pesquisa acompanhou 16.827 pacientes ao longo de seis anos para monitorar a incidência de Neuropatia Óptica Isquêmica Anterior Não Arterítica (NAION), uma condição grave que afeta o nervo óptico.

Entre pacientes com diabetes tipo 2, 8,9% dos usuários de Ozempic desenvolveram NAION, em comparação com 1,8% dos que usavam outros fármacos, representando um risco 4,28 vezes maior. Já no grupo com sobrepeso ou obesidade, o risco foi 7,64 vezes superior (6,7% vs. 0,8%).

Essa evidência reforça a importância do protocolo rigoroso ao adotar o tratamento. O estudo reforça a necessidade de entender a relação entre Ozempic e a cirurgia ocular e a importância do monitoramento do nervo óptico em pacientes que iniciam o tratamento.

Efeitos Colaterais e Impacto Sistêmico

Além dos riscos oculares específicos, esses medicamentos podem causar efeitos colaterais sistêmicos que impactam indiretamente a visão, como náuseas severas, vômitos e desidratação, que alteram a pressão arterial e a perfusão sanguínea. O equilíbrio entre o emagrecimento e a manutenção da saúde funcional dos olhos é um foco de alerta e equilíbrio para quem busca longevidade.

“A catarata é um processo natural do envelhecimento, mas a forma como chegamos à cirurgia depende das nossas escolhas de saúde hoje. O emagrecimento deve ser um aliado da qualidade de vida, não um risco invisível para a saúde humana e dos seus olhos a qualquer custo”, finaliza Ricardo.

A  jornada pela perda de peso não deve ser encarada de maneira isolada, ignorando as conexões vitais entre o sistema metabólico e a acuidade visual. A integração entre o endocrinologista e o oftalmologista é a principal garantia para que os efeitos colaterais sistêmicos sejam monitorados antes que gerem danos irreversíveis às estruturas oculares. Ao priorizar essa vigilância técnica, é possível alcançar os objetivos de bem-estar físico sem comprometer a clareza do olhar, transformando o tratamento em um passo seguro e sustentável em direção à resistência da saúde integral.

Guia de Segurança para o Paciente Moderno

Para garantir que a cirurgia de catarata ocorra sem intercorrências em pacientes que utilizam terapias para emagrecimento, alguns cuidados são indispensáveis:

  • Comunicação transparente e histórico médico: É fundamental relatar o uso de qualquer medicação (injetável ou oral) na primeira consulta. O cirurgião precisa avaliar se o fármaco afeta a estabilidade da pressão ocular ou a cicatrização. A queda da patente da semaglutida e a chegada de genéricos devem baratear o custo do tratamento.
  • Check-up de retina e nervo óptico: antes de iniciar tratamentos metabólicos intensos ou realizar uma cirurgia, o mapeamento de retina é essencial. Ele identifica se o emagrecimento acelerado causou fragilidade nos vasos sanguíneos ou se há sinais de sofrimento do nervo óptico, prevenindo complicações graves no período de recuperação.
  • Estabilidade de parâmetros: A cirurgia de catarata oferece melhores resultados quando os índices glicêmicos e o peso estão estabilizados há, pelo menos, alguns meses. Operar durante um período de mudança brusca pode levar a erros de cálculo na lente intraocular e instabilidade refracional.

A partir desses cuidados é possível construir uma ponte segura entre o objetivo de bem-estar corporal e da saúde visual e humana. A integração entre o endocrinologista e o oftalmologista é o diferencial que transforma o tratamento da obesidade em uma recuperação em um sucesso.

Sobre o Dr. Ricardo Filippo

O Dr. Ricardo Filippo é médico oftalmologista pela UFRJ e referência em cirurgias de alta complexidade. Com especialização pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO/AMB) e pelo Ministério da Educação (MEC), possui a prestigiada certificação do International Council of Ophthalmology (ICO), reconhecimento máximo da oftalmologia mundial. Especialista em ceratocone, cirurgia refrativa a laser e cirurgia de catarata, o Dr. Filippo tem subespecializações (fellowships) em Oncologia e Ultrassonografia Ocular pela UNIFESP/EPM. Com MBA Executivo em Saúde pela FGV-RJ e licenciatura em Medicina pela Universidade do Porto (Portugal), atua como Responsável Técnico da COI Oftalmologia, no Rio de Janeiro, onde lidera a implementação de protocolos avançados de saúde ocular e inovação tecnológica no setor.

Reprodução: Freepik

 

 

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