segunda, 18 de maio de 2026
Euro Dólar

’PL DOS GARIS’ PODE GERAR IMPACTO DE R$ 24 MILHÕES POR MÊS NOS CONTRATOS DE LIMPEZA URBANA DE SALVADOR

João - 18/05/2026 12:30

Todo dia, sob sol ou chuva, cerca de 4 mil trabalhadores varrem calçadas, recolhem resíduos e mantêm a cidade limpa antes que Salvador acorde. São os garis, profissionais que sustentam a saúde pública urbana e que, por décadas, receberam em troca um dos menores salários do mercado formal. O Projeto de Lei 4146/2020, o chamado PL dos Garis, chega ao Senado Federal para mudar isso, e seu impacto para a capital baiana é concreto: os dois consórcios que operam a limpeza urbana de Salvador precisarão absorver um acréscimo estimado em R$ 24 milhões mensais nos custos operacionais.

A lei que reconhece quem está nas ruas

O PL 4146/2020 foi aprovado pela Câmara dos Deputados em março de 2026 e encaminhado ao Senado Federal, onde já tem requerimento de urgência apoiado por líderes de blocos parlamentares, podendo ser incluído na pauta a qualquer momento. Assinado pelo presidente da Câmara Hugo Motta, o texto estabelece cinco direitos para trabalhadores de coleta de resíduos e conservação de áreas públicas:

  1. Piso salarial nacional de R$ 3.036,00 mensais, mais que o dobro do piso atual em Salvador, fixado em R$ 1.693,78 por convenção coletiva para jornada de 44 horas semanais.
  2. Adicional de insalubridade em grau máximo, 40% do salário-base, conforme Norma Regulamentadora nº 15 do Ministério do Trabalho, sem incidir sobre gratificações ou prêmios.
  3. Aposentadoria especial para trabalhadores expostos a condições que prejudiquem a saúde ou a integridade física.
  4. Vale-alimentação, cesta básica mensal e plano de saúde, a serem definidos em convenção coletiva, sem integrar a remuneração nem gerar encargos trabalhistas.
  5. Normas obrigatórias de segurança e medicina do trabalho, incluindo regras do Código de Trânsito Brasileiro para transporte dos trabalhadores em veículos de coleta.

A lei entra em vigor na data da publicação, sem prazo de adaptação para as empresas ou municípios contratantes.

O salário que dobra, e o que isso representa para Salvador

Hoje, um gari em Salvador recebe em média R$ 1.693,78 mensais, valor que não cobre duas cestas básicas na capital baiana. Com o novo piso de R$ 3.036,00, acrescido do adicional de insalubridade de 40%, a remuneração base sobe para R$ 4.250,40 mensais. São mais de R$ 2.700 adicionais por trabalhador, a cada mês.

Com cerca de 4 mil agentes de limpeza urbana distribuídos entre os dois consórcios que operam os serviços em Salvador, o impacto estimado chega a R$ 24 milhões mensais em custos adicionais de pessoal, uma conta que os contratos vigentes com a Prefeitura de Salvador não previram e que demanda renegociação imediata para ser absorvida adequadamente.

“Esses trabalhadores merecem reconhecimento e salário digno. Essa pauta é justa. O que precisamos é que a prefeitura sente à mesa agora, antes que a lei entre em vigor, para que possamos garantir a continuidade do serviço que protege a saúde de todos os soteropolitanos.”

Fábio Rubens de Sousa Andrade, presidente do SEMPRES/BA

Um debate nacional, e Salvador no centro dele

O PL 4146/2020 tramita há cinco anos no Congresso e representa uma reivindicação histórica da categoria. Sindicatos de trabalhadores de norte a sul do país celebram o avanço como ‘reparação histórica’, e com razão: quem trabalha todos os dias nas ruas, exposto ao calor, ao trânsito e aos resíduos, merece proteção legal à altura da sua importância.

Na Bahia, o impacto será especialmente expressivo. Enquanto em estados do Sul e Sudeste os garis já recebem valores mais próximos do novo piso, o salário base na Bahia estava em R$ 1.693,78, segundo dados do Ministério do Trabalho, o que significa que o PL representa um aumento superior a 100% na remuneração da categoria no estado.

O SEMPRES/BA acompanha essa tramitação e reafirma que a valorização dos garis é uma causa legítima e necessária. A preocupação do sindicato não é com o direito em si, mas com o caminho entre a aprovação da lei e a sua implementação efetiva, sem planejamento, sem negociação e sem contrapartida contratual.

“Não existe cidade limpa sem o gari. Não existe saúde pública sem coleta de resíduos. Essa profissão merece reconhecimento, e o PL 4146 é um passo importante. O que estamos exigindo é que esse passo seja dado com responsabilidade, com contrato renegociado e planejamento, para que o direito do trabalhador não vire problema na semana seguinte à sanção.”

Fábio Rubens de Sousa Andrade, presidente do SEMPRES/BA

O que o SEMPRES/BA pede à Prefeitura de Salvador

Em ofício encaminhado ao secretário municipal de Ordem Pública, Decio Martins Mendes Filho, e com cópia ao presidente da Limpurb, Carlos Augusto Gomes, o sindicato apresentou três demandas objetivas:

  1. Acompanhamento ativo da municipalidade sobre os desdobramentos do PL e seus impactos financeiros e operacionais no setor de limpeza urbana de Salvador;
  2. Interlocução com órgãos competentes para garantir agilidade nos repasses previstos em lei como fonte de auxílio financeiro aos municípios;
  3. Diálogo constante com o setor empresarial para construção de soluções que garantam a sustentabilidade das operações e a manutenção dos empregos, com base no reequilíbrio econômico-financeiro previsto na Lei 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações).

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.