

Não importa se de esquerda ou de direita: todos os governos brasileiros recentes, com raras exceções, estimularam mais o rentismo do que a produção. Mesmo após o sucesso do Plano Real, quando todos esperavam que o fim da inflação fosse uma espécie de motor produtivo, o que se viu foi o predomínio de uma lógica rígida de estabilidade monetária e controle fiscal em detrimento da lógica produtiva.
O pensamento financeiro dominou a política econômica do país e, desde a redemocratização, a taxa média real de juros, excluída a inflação, está entre as maiores do mundo. A força do sistema financeiro criou um ambiente cultural em que o sonho de ascensão social é explicitado na afirmação: “Eu quero viver de renda!”. Esse é o ideal dominante, bem diferente do ambiente da China ou dos Estados Unidos, onde o caminho da riqueza passa por empreender, produzir e escalar negócios.
O Brasil é o país dos bancos. Basta listar as dez empresas que mais lucraram em 2025 para constatar que cinco delas são bancos: Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Santander e BTG Pactual. Basta olhar para a TV para ver que os bancos gastam bilhões em publicidade, algo raro em um setor que vende serviços finaceiros.
Em 2025, por exemplo, a taxa Selic de 15% ao ano, mantida por um período de quase um ano, gerou superlucros para as instituições bancárias. Gerou também o maior nível de endividamento das famílias na história recente do país. E, por causa disso, centenas de empresas, algumas de grande porte, solicitaram recuperação judicial. Aliás, até o banqueiro André Esteves, cujo BTG em pouco mais de 15 anos tornou-se um dos maiores bancos do país, já está reclamando dos juros altos e da inadimplência resultante.
Logo aparecerá um economista afirmando que isso foi necessário para conter uma inflação em torno de 4%. Não procede. Nos Estados Unidos e na Índia, usou-se uma taxa de juros real em torno de 1,5% para conter uma inflação semelhante. Para uma inflação um pouco maior, a África do Sul usou juros reais de 3,5% e o México de 5%. Por que, no Brasil, com uma inflação no teto da meta, é necessário juro em dobro, uma taxa de juros real de 10% ao ano?
Isso acontece porque a força ideológica do sistema financeiro, no sentido de justificar a necessidade de juros altos — valendo-se da fobia à hiperinflação ainda presente na memória dos brasileiros — disseminou-se por toda a superestrutura, formada pelo governo, pela imprensa, pelas universidades e até pelas próprias classes produtivas. Automaticamente, as empresas produtivas buscaram se adequar, e seus setores financeiros cresceram exponencialmente, de tal modo que, muitas vezes, o lucro auferido com papéis é maior do que o lucro proveniente da produção. Isso explica por que, no Brasil, a taxa de investimento em relação ao PIB é de apenas 17%: o custo do crédito é quase sempre inviável, e parece mais razoável buscar ganhos financeiros do que investir.
A verdade é que o capital financeiro tem um peso desproporcional no Brasil. Quem mais lucra não é quem produz, mas quem financia. A criação das fintechs, que tinha o objetivo de democratizar o sistema bancário, reduzir custos, ampliar a concorrência e baratear o crédito, revelou-se um engodo. Esses bancos digitais simplificaram o sistema e ampliaram o acesso ao crédito, mas não estabeleceram concorrência com os grandes bancos, por vezes vinculam-se a eles, e atuam nos mesmos moldes do sistema bancário, praticando juros altíssimos e spreads extorsivos, trazendo para a vala comum do endividamento milhões de pessoas que estavam fora do sistema.
Sob o beneplácito do Banco Central, consolidou-se no Brasil um sistema em que o detentor de capital tem à sua disposição produtos que oferecem retornos elevados com risco relativamente baixo, enquanto aqueles que não têm capital e precisam de crédito, seja para consumir, investir ou para capital de giro, se endividam progressivamente, pagando os juros extorsivos que remuneram os rentistas e geram os superlucros dos bancos.
No Brasil, a renda financeira vale mais que a produção; a gestão de ativos vale mais que a criação de riqueza real e, assim, dissemina-se o sonho de todo brasileiro: viver de renda. Ao sul do Equador, o sucesso na vida é alcançar renda passiva, isto é, a renda que se aufere sem trabalhar diretamente na produção.
Equacionar a questão fiscal é importante, mas o maior desafio do próximo presidente será mudar a política monetária.
BAHIA: UM GRANDE IMPORTADOR DE CARROS
Cerca de 65 mil carros elétricos e híbridos foram importados pela Bahia entre janeiro e abril. A compra de automóveis atingiu US$ 613 milhões, 17% do total das importações baianas. Os carros elétricos tornaram-se o 2º maior item da pauta de importação do estado, quase igualando o montante das importações de petróleo e superior ao gasto com a importação de nafta para o Polo Petroquímico de Camaçari. Tudo indica que foi uma antecipação das importações antes da retomada gradual da tributação para veículos elétricos, prevista para julho deste ano, com a redução dos incentivos fiscais ao setor. Não é mais competitivo importar o carro inteiro e a BYD já está acelerando a produção local.
Publicado no jornal A Tarde em 14/05/2026