

O aumento da tristeza entre adolescentes deixou de ser um fenômeno silencioso para se tornar uma preocupação crescente entre especialistas em saúde mental. Em meio a rotinas aceleradas e ao uso intensivo de tecnologias, estudos recentes, como o World Happiness Report 2026, que analisou adolescentes de 47 países, incluindo o Brasil, para entender a relação entre redes sociais e bem-estar, apontam que uma parcela significativa de jovens relata sentimentos frequentes de vazio, ansiedade e desânimo. Trata-se de um cenário que levanta questionamentos sobre os efeitos da hiper conectividade na formação psíquica das novas gerações.
A discussão ganhou força após a publicação de análises que relacionam diretamente o sofrimento emocional dos adolescentes ao excesso de estímulos digitais e à lógica de comparação constante imposta pelas redes sociais. Em um ambiente onde a validação vem de curtidas e a vida é exibida de forma idealizada, cresce a sensação de inadequação e, com ela, o sofrimento psíquico.
Para a Psicanálise, o problema não está apenas na tecnologia, mas na forma como ela reorganiza o tempo, o desejo e as relações humanas. “O adolescente de hoje vive um paradoxo: ele experimenta um excesso de estímulos, mas uma escassez de elaboração emocional”, explica a psicanalista Sílvia A. Santana, diretora do Centro de Especialização e Acompanhamento Psicológico & Psiquiátrico (CEAPP). Para ela, há pouco espaço para sentir, simbolizar e dar sentido às experiências e isso empobrece a vida psíquica.
Segundo a especialista, o cenário atual favorece o que a Psicanálise define como sofrimento narcísico, um estado marcado por comparações constantes e pela sensação de nunca ser suficiente. “Nas redes, o jovem não se compara com pessoas reais, mas com versões editadas e idealizadas. Isso produz uma cobrança interna permanente, que pode evoluir para quadros de ansiedade, depressão e isolamento”, afirma.
Outro aspecto que preocupa os profissionais é a dificuldade crescente de lidar com emoções consideradas negativas. Em uma cultura que valoriza desempenho, felicidade e produtividade, a tristeza passa a ser vista como falha e não como parte legítima da experiência humana. “Essa sensação não é o problema; ela é necessária para a elaboração psíquica. O risco aparece quando o sujeito não consegue dar destino a esse afeto e fica aprisionado nele”, pontua Sílvia A. Santana.
Dados recentes reforçam esse cenário: adolescentes que passam muitas horas conectados apresentam maior risco de desenvolver sintomas depressivos, além de menor satisfação com a própria vida. Ao mesmo tempo, cresce o relato de solidão, um paradoxo em uma geração que nunca esteve tão conectada.
Para o CEAPP, centro de referência em formação e pesquisa clínica na área de saúde mental, o momento exige atenção e mudança de abordagem. A instituição observa aumento na procura por atendimento psicológico de jovens e famílias, muitas vezes já em estágios avançados de sofrimento emocional. “A questão central não é proibir a tecnologia, mas entender o que ela está fazendo com a subjetividade desses adolescentes. Precisamos criar espaços de escuta real, onde o jovem possa existir para além da performance. Sem isso, o sofrimento tende a se intensificar”, explica a diretora.
A psicanalista alerta que sinais como isolamento social, perda de interesse por atividades, irritabilidade persistente, alterações no sono e sensação de vazio devem ser observados com atenção. A recomendação é que famílias e escolas estejam atentas e busquem apoio profissional sempre que necessário.
(Imagem: Freepik)