segunda, 20 de abril de 2026
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IA AVANÇA NO BRASIL, MAS USO AINDA É SUPERFICIAL EM GRANDE PARTE DAS EMPRESAS

João Paulo - 20/04/2026 15:01 - Atualizado 20/04/2026

A inteligência artificial avança rapidamente no Brasil, mas ainda é utilizada de forma limitada dentro das empresas. Dados recentes do IBGE mostram que 41,9% das companhias industriais com mais de 100 funcionários já utilizavam IA em 2024 — um salto significativo em relação aos 16,9% registrados em 2022.

Apesar do crescimento expressivo, o uso ainda se concentra em aplicações pontuais e pouco integradas à estratégia de negócio. Para Elaine Coimbra, vice-presidente de Marketing da ABRIA (Associação Brasileira de Inteligência Artificial) e diretora de Inovação e Inteligência Artificial da ABRADI (Associação Brasileira das Empresas Digitais), esse descompasso explica por que muitas empresas ainda não conseguem capturar valor real com a tecnologia.

“A IA deixou de ser tendência e passou a fazer parte da operação. O problema é que grande parte das empresas ainda usa ferramentas de forma isolada, sem conexão com processos e objetivos claros. Isso limita completamente o impacto nos resultados”, afirma.

O avanço da tecnologia é impulsionado principalmente pela popularização da IA generativa, que acelerou a adoção em áreas como marketing, atendimento e análise de dados. Ainda assim, o nível de maturidade varia de acordo com o porte das empresas. Levantamento do Sebrae em parceria com a FGV indica que, embora até 63% das médias e grandes empresas já utilizem IA em seus negócios, o uso frequente ainda é restrito — chegando a apenas 35% nesse grupo e sendo ainda menor entre pequenos negócios.

Esse cenário revela um padrão: a tecnologia está presente, mas ainda não é explorada de forma estratégica. “Existe uma diferença clara entre experimentar IA e operar com IA. Muitas empresas estão na fase de teste, sem transformar a estrutura de trabalho. E é essa transformação que gera ganho de produtividade e receita”, explica Elaine.

O contraste fica ainda mais evidente quando comparado ao cenário global. Pesquisa da McKinsey mostra que 72% das empresas no mundo já utilizam inteligência artificial em alguma medida, com aplicações cada vez mais conectadas à tomada de decisão e à geração de valor.

No Brasil, a adoção também é alta entre profissionais: levantamento da PwC aponta que 71% dos trabalhadores já utilizam IA em suas atividades. Ainda assim, o uso corporativo estruturado não acompanha esse ritmo.

Na prática, isso significa que a tecnologia avança mais rápido no nível individual do que na estratégia das empresas. “O acesso à IA já não é mais uma barreira. O que diferencia as empresas agora é a capacidade de integrar essa tecnologia ao modelo de negócio”, afirma Elaine.

Outro ponto crítico está na forma como a IA é aplicada. Dados do IBGE mostram que o uso se concentra principalmente em áreas administrativas (87,9%) e comerciais (75,2%), enquanto aplicações mais profundas, ligadas à produção e inovação, ainda avançam de forma mais lenta.

 

Esse padrão reforça o caráter ainda superficial da adoção. “Quando a IA fica restrita a tarefas operacionais, ela gera eficiência pontual. Mas o salto de resultado acontece quando ela passa a orientar decisões, prever cenários e redesenhar processos”, diz.

Para avançar, o caminho passa por tratar a inteligência artificial como parte da estratégia central do negócio, e não como uma iniciativa paralela. Isso envolve definição de objetivos claros, integração entre áreas e desenvolvimento de competências internas.

“O maior erro hoje não é não usar IA. É usar sem estratégia. Empresas que não estruturarem essa adoção agora correm o risco de perder competitividade de forma acelerada nos próximos anos”, conclui.

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