quarta, 08 de abril de 2026
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TÓRAX AFUNDADO OU PROJETADO PODE AFETAR SAÚDE E AUTOESTIMA

João Paulo - 08/04/2026 09:40 - Atualizado 08/04/2026

Nem sempre é apenas estética. Em muitos casos, aquela alteração no formato do peito, seja afundado ou projetado, pode interferir diretamente na respiração, no funcionamento do coração e até na qualidade de vida. As deformidades torácicas, embora pouco discutidas, afetam milhares de brasileiros e costumam surgir ainda na infância ou adolescência, período em que o impacto físico e emocional se intensifica.

As chamadas deformidades da parede torácica, como o pectus excavatum (peito “afundado”) e o pectus carinatum (peito “de pombo”), têm origem no crescimento anormal das cartilagens do tórax. Estima-se que essas alterações atinjam uma em cada 200 pessoas no Brasil, com maior incidência no sexo masculino, segundo estudos publicados em revistas científicas nacionais. Em pesquisas com escolares, a prevalência gira em torno de 1,95%.

Impactos reais – Embora muitas vezes associadas apenas à aparência, essas deformidades podem trazer consequências clínicas importantes. “Dependendo da gravidade, há compressão de órgãos como coração e pulmões, o que pode provocar falta de ar, cansaço e limitação física. Mas também existe um impacto emocional significativo, especialmente em adolescentes”, explica o cirurgião torácico Pedro Leite, coordenador do Núcleo de Cirurgia Torácica do Instituto Brasileiro de Cirurgia Robótica (IBCR).

Ele chama atenção para o subdiagnóstico. “Muitos pacientes convivem anos com a deformidade sem saber que existe tratamento. Às vezes, só procuram ajuda quando o desconforto físico ou emocional já está mais avançado”, afirma.

Na maioria dos casos, a alteração já está presente desde o nascimento, mas tende a se acentuar na puberdade, quando o corpo cresce mais rapidamente. “O diagnóstico costuma ser clínico, feito no consultório, mas exames de imagem ajudam a medir o grau da deformidade e o impacto sobre os órgãos internos”, explica Pedro Leite. “Quanto mais cedo identificamos, maiores são as chances de conduzir o tratamento de forma menos invasiva”, completa.

Vivência – A estudante Ana Karla Matos Leão (20), moradora de Irecê (BA), conviveu com a deformidade desde muito cedo e sentiu na pele o impacto que vai além do físico. “Recebi o diagnóstico antes dos três anos de idade. Médicos recomendaram natação, terapias, o uso de um aparelho de ferro… mas nada disso resolveu. Por um bom tempo, a busca por um tratamento efetivo ficou esquecida”, conta.

Na infância, a condição não incomodava. Mas, com o crescimento, a percepção mudou. “À medida que cresci, a deformidade foi crescendo junto comigo. Na juventude, comecei a me incomodar… Não usei biquíni até os 20 anos”, contou Ana Karla. A falta de informação também pesou na decisão de buscar tratamento. “Comecei a pesquisar sobre cirurgias, mas só encontrava exemplos de homens. Não achei relatos de mulheres com um problema parecido com o meu”, completou.

Após dois anos de busca, Ana Karla encontrou atendimento especializado com o cirurgião Pedro Leite e decidiu enfrentar o procedimento. “Eu tinha medo, mas ele me explicou como seria a cirurgia e, graças a Deus, meu plano cobria”. Ana Karla foi submetida à cirurgia em julho de 2025, com sete dias de internação e mais uma semana de recuperação em Salvador antes de retornar para casa. “Não foi fácil a recuperação, mas hoje estou muito mais confiante. Posso usar meus biquínis. O resultado valeu a pena. Minha autoestima foi elevada assim como a minha gratidão”, disse.

Novas abordagens – Nos últimos anos, o tratamento dessas deformidades passou por avanços importantes. Técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia de Nuss, reduziram o trauma cirúrgico e aceleraram a recuperação dos pacientes. Apesar dos avanços tecnológicos na cirurgia torácica, a correção das deformidades da parede torácica ainda se baseia principalmente em técnicas já consolidadas e amplamente utilizadas na prática clínica.

Além das cirurgias, há alternativas não invasivas. Em casos de pectus carinatum, por exemplo, o uso de órteses (coletes compressivos) pode corrigir a deformidade ao longo do crescimento, evitando procedimentos cirúrgicos.

Apesar dos avanços, o maior desafio ainda é a conscientização. “Muita gente encara como algo apenas estético, mas não é. Pode haver impacto funcional e emocional importantes. Quanto antes o paciente for avaliado, melhor o resultado”, reforça Pedro Leite. Entre ignorar e tratar, a diferença costuma estar em um passo simples: procurar orientação especializada.

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