

A seis meses da votação, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registra um índice inédito de desaprovação, se comparado aos demais momentos em que petistas como ele próprio estavam no governo e tentavam continuar no cargo. Para contornar o cenário, o presidente aposta agora numa série de benesses — o tradicional uso da máquina às vésperas da campanha, também acionado por outros postulantes à reeleição no passado. O pacotão inclui medidas voltadas para o preço dos combustíveis, subsídios ao gás e à conta de luz e um novo programa de renegociação de dívidas, entre outras.
É comum que presidentes melhorem a avaliação em ano eleitoral. Depois da recuperação conquistada no segundo semestre do ano passado, no entanto, Lula voltou a cair. Em 2006, 2010 e 2014, ocasiões em que o PT comandava o Planalto e conseguiu a recondução, o governo era majoritariamente aprovado. Agora, com placar desfavorável de 51% a 43% na última pesquisa Ipsos-Ipec, é a primeira vez que chega a essa altura do jogo com saldo negativo.
— Existe hoje uma instabilidade, uma volatilidade que não existia no início do século. O mundo ficou muito mais incerto — observa o cientista político Carlos Melo, professor do Insper. — A reeleição era regra. Até Dilma Rousseff em 2014, todos se reelegeram. Quando olhamos pesquisas do passado, há uma dessincronia com o momento atual.
Apesar de o ministro da Casa Civil, Rui Costa, ter cobrado publicamente o chefe da Secretaria de Comunicação (Secom), Sidônio Palmeira, o governo indica saber que o problema não está só nessa seara — tanto que passou a ventilar novas formas de reverter o mau humor do eleitorado.
Um dos focos é colocar em curso, de novo, um esquema de renegociação de dívidas. A despeito do cenário de desemprego baixo, inflação controlada e aumento na renda, o comprometimento de recursos das famílias com empréstimos e financiamentos atingiu a máxima histórica. Em um mês, R$ 29 de cada R$ 100 vão para parcelas de dívidas, que viram uma bola de neve no cenário de juros altos.
Logo no primeiro ano do mandato, Lula lançou o Desenrola. De lá para cá, o brasileiro se endividou mais uma vez, e a inadimplência subiu. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, se reuniu com representantes do setor financeiro para esboçar o novo projeto. A previsão é de que sejam oferecidos descontos de até 80%.
Na semana passada, o petista chegou a responsabilizar a população pelo problema:
— É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas, no final do mês, a soma dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente passa a ficar zangado: “Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada”. Aí quem vocês xingam? O governo.
Gás de cozinha
O mercado de gás de cozinha ilustra bem a atuação do governo para evitar insatisfações a pouco tempo da eleição. Lançado no ano passado, o Gás do Povo — que alcança cerca de 15 milhões de famílias — é uma das principais medidas do pacotão. Só que a guerra no Irã, que gera impacto mundial na oferta de petróleo, faz a gestão Lula considerar agora uma subvenção ao setor, que depende em parte das importações. O medo é de que as distribuidoras parceiras abandonem o Gás do Povo se não houver reajuste no repasse federal para contornar as oscilações.
Onde também se caminha para uma segunda benesse dentro do mesmo universo é no setor de energia elétrica. Depois do Luz do Povo, criado em 2025, está em debate agora um aporte para apaziguar reajustes na conta, movimento similar ao feito em outros anos eleitorais por Jair Bolsonaro (PL) e Dilma Rousseff (PT).
Também na esteira da guerra, foi anunciado, em parceria com os estados, o subsídio do diesel para conter a alta no preço do combustível. O custo para encher o tanque é uma habitual irritação do eleitor. Como o país depende do transporte de cargas por caminhão, acaba havendo ainda um efeito no preço dos produtos, uma vez que fica mais caro realizar os fretes.
A onda de movimentos calculados em gestação inclui até reverter a famosa “taxa das blusinhas”, que tributa importações abaixo de 50 dólares. Apesar de engordar a arrecadação do governo, a medida é impopular e regularmente explorada pela oposição. Outra pauta em discussão envolve suspender as multas por evasão do pedágio “free flow”, aquele sem cancelas e com cobrança automática.
Neste início de ano, o governo ainda não colheu os frutos daquela que é considerada a principal vitrine do Lula 3, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Outra bandeira tida como ativo eleitoral, constantemente abordada pelo presidente nos último meses, é a promessa de acabar com a escala 6×1.
De Bolsonaro a Dilma
Único presidente que tentou se reeleger e não conseguiu, Bolsonaro tinha situação bem pior que a atual de Lula. No Ipec de dezembro de 2021, marcava 68% de desaprovação, com apenas 27% de aprovação. Impulsionado por manobras fiscais, chegou à véspera do segundo turno com placar mais parelho: 52% de reprovação e 44% de aval ao trabalho.
Não foi o suficiente para vencer, mas se tornou competitivo e acabou derrotado pela menor diferença da história da Nova República. As medidas incluíram o aumento do Auxílio Brasil para R$ 600, ampliação do vale-gás e auxílios a caminhoneiros e taxistas.
Em 2014, a petista Dilma Rousseff, ainda lutando para se recuperar do baque iniciado após as manifestações de junho de 2013, anunciou seu próprio pacote de bondades para sustar a piora nas pesquisas. O conjunto incluiu aumento de 10% no Bolsa Família e correções na tabela do Imposto de Renda.
Para Carlos Melo, do Insper, Lula segue neste mandato uma cartilha que não é mais suficiente, baseada em apresentar bons indicadores macroeconômicos e sobrevalorizar políticas interpretadas como direitos pela população. O que falta ao presidente e aos adversários, diz, é vender de forma sedutora uma projeção de futuro.
— Os números não bastam. Em 2002, o marqueteiro Duda Mendonça fez uma propaganda de grávidas andando em direção ao futuro. Lula ainda desperta essa esperança? Ninguém desperta — avalia. — Quando você está insatisfeito com o presente e sem perspectiva de futuro, vota por mudança. Mas será uma eleição de rejeição, de detonar o adversário. O que Lula parece querer fazer é mostrar que o futuro seria ainda pior com outro presidente.
De fato, a comparação com os anos sob Bolsonaro é outra aposta do Planalto. Na reunião que marcou a despedida dos ministros que vão disputar eleições, na semana passada, Rui Costa elencou o que considera pontos positivos da gestão petista e delineou abertamente a estratégia: — A minha dúvida, Sidônio, é se o povo sabe disso. Acho que temos que colocar como foco comparar e mostrar.