

A Bahia é um estado marcado por uma dualidade estrutural, e isso ainda define os resultados eleitorais. De um lado está a Bahia moderna, representada pelas grandes cidades, com maior dinamismo econômico e diversidade social; de outro, a chamada Bahia profunda, formada por centenas de pequenos municípios, onde a pobreza é a característica mais presente.
É nesse cenário que se dará a disputa entre o governador Jerônimo Rodrigues, da coligação liderada pelo PT, e o ex-prefeito ACM Neto, representando a coligação encabeçada pelo União Brasil.
A Bahia moderna é formada por Salvador e pelos principais centros urbanos — como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari e outros, e tem como características políticas principais: maior volatilidade eleitoral; um ambiente mais ideológico e polarizado; e uma influência muito maior da mídia e das redes sociais.
A visão política nessas cidades é formada, muitas vezes, seguindo tendências nacionais, com forte impacto resultante das redes digitais e da imprensa. Essa Bahia moderna tem em Salvador sua caixa de ressonância, mas a capital abriga apenas 20% do eleitorado e, mesmo somadas às grandes cidades do interior, o percentual não atinge a 50% do eleitorado.
A Bahia profunda reúne a maior parte dos 417 municípios, especialmente os menores, com baixa renda e forte presença do setor público, e tem como características políticas principais: maior estabilidade eleitoral; forte mediação política local; baixa penetração de discursos ideológicos abstratos; e menor influência, embora crescente, das redes sociais.
A Bahia profunda tem, ainda, uma característica que permitiu ao PT vencer as últimas eleições. Foi aí que se consolidou, ao longo das últimas décadas, aquilo que o cientista político Cláudio André chamou, em entrevista ao jornal Tribuna da Bahia, de lulismo baiano.
Mais do que uma preferência eleitoral, o lulismo na Bahia profunda é uma forma de vínculo político e social. Ele se sustenta na memória concreta de políticas de inclusão, na presença de programas de transferência de renda e, sobretudo, em redes locais de mediação. Prefeitos, vereadores e lideranças funcionam como ponte entre o poder central e o cotidiano do eleitor. Não se trata apenas de ideologia, mas de pertencimento.
É nesse cenário que ocorrerá a disputa entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto.
Em relação à disputa presidencial, o presidente Lula será imbatível na Bahia profunda, mas terá que lutar para ampliar seus votos na Bahia moderna.
Já a candidatura de Flávio Bolsonaro enfrenta desafios ainda maiores, pois ele é pouco conhecido no interior. Além disso, seu discurso encontra menor ressonância em contextos de maior vulnerabilidade social e menor presença institucional direta. Flávio Bolsonaro sabe que tende a perder a eleição na Bahia e precisa lutar, com o apoio da oposição local, para reduzir o tamanho da derrota.
Na disputa pelo governo da Bahia, o cenário é claro. Jerônimo Rodrigues precisa conquistar uma maior parcela do eleitorado da Bahia moderna e colar em Lula para manter e ampliar o apoio na Bahia profunda.
Já ACM Neto precisa reduzir a força do lulismo na Bahia profunda, com presença física, alianças locais e uma narrativa adaptada à realidade do interior. E buscar uma vitória expressiva nas grandes cidades que possa compensar a provável derrota nos pequenos municípios.
A eleição baiana de 2026 não será decidida apenas por tendências nacionais ou pelo desempenho de lideranças individuais. Ela dependerá, sobretudo, da capacidade de entusiasmar a Bahia moderna e de entender o que a Bahia profunda precisa e anseia. (EP- 30/03/2026)



