quarta, 11 de março de 2026
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VORCARO REPASSOU R$ 700 MI PARA PARAÍSO FISCAL DURANTE NEGOCIAÇÕES COM O BRB

João Paulo - 11/03/2026 08:20

O banqueiro Daniel Vorcaro repassou pelo menos R$ 700 milhões em ativos do Banco Master para sua holding fora do país durante o período de negociação e tentativa de aprovação da venda do banco para o BRB, posteriormente negada pelo Banco Central (BC). De acordo com dados obtidos pelo GLOBO em um alerta do Coaf, entre janeiro e julho de 2025, o Master fez diversas movimentações em fundos de investimento, repassando as cotas para a empresa de Vorcaro nas Ilhas Cayman, um paraíso fiscal em que não há imposto corporativo e com leis flexíveis para investimentos. Essas transferências foram alvo do órgão de controle no Brasil porque os valores investidos na empreendimento não condiziam com seu patrimônio declarado. Na última semana, o BC decretou a indisponibilidade dos bens da offshore, empresa aberta no paraíso fiscal, indicando que ela era uma das controladoras do Master.

Segundo as informações relatadas no alerta do Coaf, a Master Holding, que passou a ser chamada de Titan Holding, tem como acionista o banqueiro Daniel Vorcaro. Tratava-se de uma das chamadas “holdings patrimoniais” de Vorcaro: empresas criadas para registrar bens pessoais do banqueiro, como imóveis de luxo, aeronaves e automóveis, por exemplo.

As movimentações de repasse de ativos do Master para a holding fora do país começaram em janeiro de 2025, quando foi realizada uma cessão de venda de cotas de um fundo, chamado de Quíron, por R$ 85 milhões. No mês seguinte, o Banco Master transferiu suas cotas no Fundo Saint German por R$ 66 milhões. Como demonstrado ao longo das investigações, o Master fazia investimentos por meio de fundos.

Em abril, também houve a transferência de cotas do fundo GSR para outro fundo, o Krispy, por R$ 555 milhões, a maior movimentação do período. De acordo com o Coaf, a holding de Vorcaro registrada nas Ilhas Cayman figura como cotista deste fundo Krispy.

“Desta forma, em linha com a regulamentação em vigor, vimos por meio deste, comunicar esta Unidade de Inteligência Financeira sobre a suspeita identificada, onde os valores movimentados pelo Cliente mostram-se  incompatíveis com os valores de patrimônio declarados pelo Cliente nas fichas cadastrais fornecidas”, afirmou a equipe técnica do órgão de controle. Além disso, segundo o alerta, em julho de 2025, a holding realizou uma aplicação de R$ 314 milhões no fundo Tessália. De acordo com informações registradas na Comissão de Valores Mobiliários, os fundos Quíron e Tessália têm participação societária na Oncoclínicas.

Em novembro do ano passado, as ações da Oncoclínicas despencaram 13% após a revelação de que a firma médica tinha R$ 433 milhões em CDBs do Banco Master, um de seus acionistas. Os outros fundos repassados por Vorcaro para sua própria holding no exterior tem entre seus ativos, principalmente, precatórios em ações de usinas e empresas de saúde contra o Poder Público.

O reforço da holding ocorreu em paralelo à aproximação do Master com o banco estatal de Brasília. As investigações demonstraram que, a partir do final de 2024, Vorcaro e o BRB começaram negociações em torno da venda da instituição financeira para o banco do Distrito Federal.

A Polícia Federal investiga, entre outros pontos, operações realizadas por Vorcaro para repassar cartas de crédito fraudadas para o BRB, negócio que teve que ser cancelado após a identificação de que os ativos não tinham expectativa de serem pagos, o que geraria um rombo bilionário ao banco brasiliense.

Além disso, conforme o GLOBO mostrou, entre o final de 2024 e fevereiro de 2025, fundos de investimento ligados ao Master também atuaram na operação de aumento de capital social do BRB, comprando ações do banco com o objetivo de inflar artificialmente o tamanho do banco para facilitar uma eventual aprovação da compra pelo Banco Central.

Depoimentos prestados por Vorcaro e outros representantes do BRB à Polícia Federal e anotações encontradas pelos investigadores revelaram também que, nesse período, na tentativa de salvar o negócio, o banqueiro tentou organizar uma série de ativos para repassar ao banco estatal. Apesar disso, mesmo com o anúncio do negócio em março de 2025, em setembro do mesmo ano o Banco Central rejeitou a aquisição.

No último dia 5 de março, o Banco Central notificou a indisponibilidade de bens da Titan Capital Holding, atual nome da Master Holding. Segundo o comunicado, a incidência da indisponibilidade de bens ocorreu em razão da participação da offshore no controle indireto do Banco Master, segundo Mapas de Composição de Capital produzidos pelo Banco Central para identificar os controladores do Master.

A legislação prevê que os administradores de instituições financeiras em liquidação, como é o caso do Master, ficarão com todos os seus bens indisponíveis. Isso significa que os controladores não podem alienar seu patrimônio para outra companhia até a apuração e liquidação final de suas responsabilidades. A indisponibilidade atinge todos os controladores que passaram pelo banco nos doze meses anteriores ao ato de liquidação. O decreto de indisponibilidade se aplica também àqueles que tinham controle direto ou indireto.

 

(Infomoney)

Daniel Vorcaro – Redes Sociais

Agência O Globo

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