

Como “tudo que dá para rir dá para chorar” e as grandes guerras costumam se localizar longe daqui, pode-se imaginar que se algo que dê para rir possa a vir acontecer seja por aqui. Mesmo com a sintetização da borracha, em larga escala nas fábricas petroquímicas com seus fabulosos elastômeros de inúmeras aproveitamentos, a borracha natural continua sendo usada para aplicações específicas como para manufatura dos pneus dos aviões, suportando os freios bruscos dos pousos e o peso das aeronaves. Durante a Segunda Grande Guerra houve um aumento significativo da demanda mundial por borracha natural o que levou o Brasil a explorar látex de várias plantas, além das seringueiras. Duas delas foram exploradas aqui na Bahia, a mangabeira e a maniçoba, chegando-se a produção de mais de 2.000 kg de látex. A mangabeira era encontrada em Barreiras e no litoral e a maniçoba na Terra do Sol, popularmente conhecida como “maniçoba de Jequié”.
O conflito entre a coalizão Estados Unidos da América (EUA) e Israel contra o Irã, tem ocupado os noticiários e não deixa de ser uma preocupação para manutenção da Paz Mundial, começando a pesar no bolso dos consumidores do mundo inteiro com o aumento do preço do petróleo no mercado internacional. A interrupção do fluxo de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, fez a cotação do petróleo ultrapassar os US$ 95 por barril. Se a Europa e a China passarem a receber menos petróleo reduzirão o refino, o que leva a uma diminuição da oferta de gasolina e óleo diesel no mercado interno deles.
Atualmente, o Brasil tem um déficit de produção de derivados do petróleo de cerca de 650 mil barris por dia (bpd). O atraso na construção de uma refinaria no Estado de Pernambuco e o cancelamento dos projetos programados para os Estados do Maranhão e Ceará, anunciados pelo Governo, tem a ver com esse déficit. O Brasil tem importado a gasolina dos EUA e o óleo diesel da Rússia. Se os Estados Unidos socorrerem os países da Europa, preferencialmente, e a Rússia der maior atenção à China, o que é provável, poderá haver desabastecimento de gasolina e óleo diesel no Brasil.
As soluções de longo prazo fortalecem dois projetos que estão sendo desenvolvidos na Bahia: os projetos Macaúba e BRAVO. O Projeto Macaúba tem por principal objetivo a produção de óleo vegetal extraído da macaúba. A empresa encarregada do projeto é a Acelen Renováveis, subsidiária da Mubadala Capital que é também proprietária da Refinaria Mataripe. A macaúba é uma planta nativa do Brasil e tem o mais alto poder energético entre as oleaginosas. No total deverão se plantados 180 mil hectares de macaúba, com investimento estimado em R$ 17 bilhões.
O outro, o Projeto BRAVE, liderado pela Shell em parceria como SENAI-CIMATEC e UNICAMP, visa transformar o sisal (agave) em uma fonte viável de biomassa para a produção de etanol (fermentação da inulina), biogás e outros bioprodutos. O Brasil é o maior produtor mundial de sisal e a Bahia produz cerca de 80%. Os restantes 20% são produzidos na Paraíba, tudo no semiárido. Existem outros projetos que aumentarão a produção do álcool, como o da irrigação subterrânea por gotejamento da cana de açúcar e a hidrolise enzimática de bagaços celulósicos.
Após a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial o Brasil cedeu áreas para apoio das tropas aliadas. Já existia no Rio Grande do Norte o Campo de Aviação de Paramirim o que deu origem à Base Aérea de Natal. Aí foi construída, em proporções muito maiores a Base Americana, também denominada de Base de Paramirim, ou Paramirim Field. A partir daí saia todo o apoio às tropas aliadas no Continente Africano. A cessão de áreas pelo governo brasileiro não parou aí. Na Bahia foi construída a Base Aérea de Salvador (05/11/1942) com o Aeroporto de Ipitanga, em São Cristóvão, e a Base Baker, de Fuzileiros Navais, e uma estrada ligando a Base Baker ao Aeroporto, hoje conhecida como Estrada Velha do Aeroporto. Na mesma ocasião foram construídos os campos de pouso de Barreiras e de Caravelas. A história revela que quando Getúlio Vargas negociou com os norte-americanos os Acordos de Washington a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o Estado Novo preferiu localizá-la no Rio de Janeiro, no Sudeste. Poderia, em troca, tê-la construído no Nordeste.
Tudo isso para dizer que o aumento da produção de álcool e o aumento da produção de óleos vegetais, representam uma excepcional oportunidade de negócio trazidos pelas guerras, aparentemente longínquas.
Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.)