

O preço das corridas por aplicativo disparou na Região Metropolitana de Salvador e acumulou alta de 47,9% em 12 meses, segundo dados de dezembro de 2025 do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O serviço registrou a maior inflação entre os itens analisados no período.
O aumento tem pressionado o orçamento das famílias e reacendido o debate sobre os chamados “gastos invisíveis”, despesas pequenas e recorrentes que, quando somadas ao longo do mês, acabam pesando no bolso.
Nesse grupo entram custos como taxas de conveniência em aplicativos, assinaturas digitais pouco utilizadas, serviços com renovação automática e pedidos frequentes por delivery. Embora muitas dessas despesas pareçam pequenas individualmente, o impacto aparece quando o consumidor observa o total gasto no fim do mês.
Para Joana Macêdo, assessora de Desenvolvimento do Cooperativismo na Central Sicredi Nordeste, o problema está menos no valor isolado dessas despesas e mais na dificuldade de percebê-las no dia a dia.
“O problema não é necessariamente o valor ou a natureza do serviço, mas a falta de visibilidade consolidada. Quando os gastos são pulverizados em diferentes plataformas e datas, o consumidor perde a noção do total comprometido no mês”, afirma.
Segundo ela, o transporte por aplicativo exemplifica bem essa dinâmica porque combina variação frequente de preços com pagamentos automáticos.
“A corrida atende a uma necessidade real de deslocamento, mas a dinâmica digital reduz a percepção do custo acumulado. Sem um acompanhamento sistemático, a soma mensal pode surpreender”, diz.
Especialistas em finanças comportamentais também apontam que a facilidade dos pagamentos digitais pode estimular o chamado consumo em “piloto automático”. Para Cristiane Amaral, gerente de Educação Financeira e Liderança Cooperativista do Sicredi, o principal risco está na repetição quase imperceptível desses gastos.
“O verdadeiro problema não é o pão de queijo ou o café, mas o modo automático. Quando a compra é rápida demais e sem atrito, como no digital, o cérebro não registra aquilo como um gasto consciente”, explica.
Segundo ela, a digitalização dos pagamentos — com biometria, cartões já cadastrados e confirmações rápidas — reduziu o esforço necessário para gastar, o que pode aumentar a frequência de uso de alguns serviços.
Cristiane destaca que despesas aparentemente pequenas podem ganhar outra dimensão ao longo do tempo. “Pequenos gastos diários podem ter o mesmo impacto de uma grande compra que a pessoa pensa muito antes de fazer, mas, por acontecerem de forma silenciosa, passam despercebidos”, afirma.
Foto: Reprodução/Correio do Estado