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CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO PODE PRESSIONAR PREÇOS GLOBAIS DE ALIMENTOS

VICTOR OLIVEIRA - 06/03/2026 15:55 - Atualizado 06/03/2026

O atual cenário de tensão geopolítica no Oriente Médio ocorre em um momento em que os preços internacionais dos alimentos voltaram a subir após cinco meses consecutivos de queda. Embora a alta recente ainda não esteja diretamente ligada ao conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, especialistas alertam que um prolongamento das tensões pode gerar uma nova onda de inflação alimentar no mundo.

Um cenário semelhante foi registrado em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Naquele ano, os preços internacionais dos cinco principais grupos de alimentos monitorados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) — cereais, carnes, açúcar, óleos vegetais e lácteos — tiveram aumento médio de 15% em relação a 2021.

A queda na produção ucraniana, dificuldades logísticas no transporte internacional, além da alta no preço do diesel, de insumos agrícolas e dos custos de frete e seguros contribuíram para a escalada dos preços naquele período.

Analistas apontam que efeitos semelhantes podem ocorrer caso o novo conflito se prolongue, especialmente se houver interrupções no tráfego pelo Estreito de Hormuz, uma das rotas mais estratégicas para o transporte global de energia.

Alta registrada em fevereiro

De acordo com a FAO, a alta observada em fevereiro foi impulsionada principalmente pelos preços de carnes e óleos vegetais.

No caso das carnes, os valores atingiram o nível anual mais alto da série histórica da entidade em termos nominais. A demanda permanece elevada em grandes mercados consumidores, como China e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que importantes fornecedores enfrentam restrições de oferta.

Os Estados Unidos possuem atualmente o menor rebanho bovino em 75 anos, o que deve aumentar as importações do país. Já a China continua entre os maiores compradores mundiais, mesmo operando com cotas de importação.

Pressões em outros mercados

Outros produtores também enfrentam limitações na oferta. A Austrália registra menor disponibilidade de carne bovina, enquanto o Brasil maior produtor e exportador mundial não projeta expansão significativa da produção neste ano.

Um indicativo dessa pressão é o preço recorde da arroba do boi gordo no país, que chegou a R$ 353, refletindo a entrada em um novo ciclo pecuário.

Os óleos vegetais também registram valorização global, impulsionados principalmente pela demanda para produção de biocombustíveis. No Brasil, houve ampliação recente da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel. Nos Estados Unidos, o governo estuda elevar em 67% a participação de biodiesel e diesel renovável na matriz de combustíveis fósseis.

Caso a proposta da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) seja aprovada, o país poderá consumir cerca de 5,61 bilhões de galões de biodiesel e diesel renovável. Com isso, o esmagamento de soja pode alcançar 74,5 milhões de toneladas, acima dos 70 milhões de toneladas registrados no ano passado, segundo estimativas de consultorias do setor.

A maior demanda por óleos vegetais também está ligada às políticas energéticas de países como a Indonésia, grande produtora de óleo de palma, que pretende ampliar o uso do produto em combustíveis, reduzindo a oferta disponível no mercado internacional.

Desempenho de outros alimentos

Entre os cereais, os preços subiram 1,1% em fevereiro, embora ainda estejam 3,5% abaixo do patamar registrado há um ano. O milho permanece estável, enquanto sorgo e arroz voltaram a registrar alta diante do aumento da procura internacional.

No segmento de lácteos, houve queda de 1,2% em fevereiro na comparação com janeiro, acumulando retração de 19,2% em doze meses. Mesmo assim, produtos como leite em pó integral e desnatado começam a reagir devido à menor oferta da Oceania.

No Brasil, após nove meses consecutivos de queda, o preço do leite voltou a subir no campo, com alta de 1% em janeiro, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

Já o açúcar permanece no menor nível anual em seis anos, pressionado pela maior oferta global. Ainda assim, especialistas avaliam que mudanças na produção brasileira, como maior destinação da cana-de-açúcar para etanol, podem influenciar os preços no mercado internacional.

Apesar de os estoques globais de grãos estarem mais equilibrados do que no início da guerra entre Rússia e Ucrânia, analistas alertam que um conflito prolongado no Oriente Médio pode elevar novamente os preços dos alimentos, principalmente devido a possíveis interrupções logísticas e ao aumento dos custos de produção.

Foto: Reprodução

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