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PRODUTORES DA BAHIA ALERTAM: IMPORTAÇÃO DE CACAU PODE QUEBRAR O SETOR EM 2026

Bruna Carvalho - 29/01/2026 11:00

Produtores de cacau da Bahia realizaram protestos contra o aumento das importações de amêndoas do continente africano, especialmente da Costa do Marfim, que cresceram quase 17% em 2025, em um cenário de queda nos preços internacionais do produto. O setor aponta riscos sanitários, distorções comerciais e prejuízos à cadeia produtiva nacional, com deságio de até 30% nos preços pagos aos cacauicultores brasileiros.

As manifestações começaram no fim de semana, com interdição de rodovias no estado. Nesta quarta-feira (28), houve mobilização nas proximidades do Porto de Ilhéus, no sul da Bahia, onde navios têm atracado com cargas de cacau importado. A indústria processadora nega irregularidades.

Segundo os produtores, o regime de drawback — que permite a importação do produto com suspensão de tributos — estaria sendo utilizado de forma indevida. De acordo com o diretor da Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), Guilherme Moura, há indícios de uso do mecanismo para formação de estoques e controle de preços no mercado interno. “O prazo entre importar cacau e exportar o derivado é de dois anos, é muito dilatado. Queremos verificar se esse mecanismo está sendo usado como instrumento de formação de estoque, para controlar preço e o apetite para compra de cacau”, afirmou.

Dados do setor indicam que, em 2025, as importações brasileiras de cacau chegaram a 112,8 mil toneladas, ante 96,6 mil toneladas no ano anterior. Desse total, 41,6 mil toneladas vieram da Costa do Marfim. Os portos da Bahia concentraram a maior parte da entrada do produto estrangeiro, com quase 70 mil toneladas desembarcadas no estado.

Informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, no acumulado de 12 meses até agosto de 2025, o cacau foi o segundo produto mais importado com suspensão de tributos via drawback, somando US$ 441,6 milhões — o equivalente a mais de 99% das importações totais da amêndoa em bruto ou torrada no período. Em 2024, o valor havia sido de US$ 121,7 milhões.

Diante do cenário, a Faeb solicitou à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) a realização de um estudo sobre a aplicação do regime de drawback, com foco em prazos, volumes e fiscalização, e defende a revisão da medida.

Os cacauicultores baianos também apontam suposta formação de cartel por parte das indústrias processadoras na compra do produto nacional e afirmam que levarão o caso ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Segundo a Faeb, as empresas têm aplicado um deságio equivalente a cerca de um terço do preço efetivo da amêndoa.

“Esse desconto adicional da indústria não se justifica. A indústria alega que o mercado está frio e que há pouca procura, mas está importando cacau da África”, acrescentou Moura. “É uma situação muito difícil. Se permanecer assim vai desorganizar totalmente a cultura do cacau em 2026”, completou.

De acordo com a entidade, há um ano a arroba do cacau era comercializada a cerca de R$ 1 mil, enquanto atualmente o valor está abaixo de R$ 300. Sobre esse preço, ainda incidem descontos médios de aproximadamente R$ 100.

(Globo Rural)

Foto: Codeba

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