terça, 27 de janeiro de 2026
Euro Dólar

JOVENS NEGROS DE SALVADOR PARTICIPAM DE FORMAÇÃO TEATRAL COMPLETA DE FORMA GRATUITA

João Paulo - 27/01/2026 12:17

A residência artística do projeto “Ordem Questionada”, idealizada pelo Coletivo Subverso das Artes, segue em plena atividade e realiza, neste fim de semana, mais uma rodada de oficinas. Desta vez, as aulas são de Atuação e Direção Teatral no sábado (31) e de Cenografia no domingo (1º), na Casa das Histórias de Salvador, no Comércio. Voltada à formação de artistas negros, a iniciativa parte do entendimento de que talento, sozinho, não garante espaço no teatro, pois é preciso acesso, aperfeiçoamento técnico e senso de coletividade para transformar vocação em carreira.

Com oficinas quinzenais em andamento desde novembro de 2025, a iniciativa vem promovendo uma imersão formativa em diferentes linguagens teatrais. Até o fim de janeiro, os participantes estão divididos entre aulas de Escrita Teatral, Atuação, Direção Teatral e Direção Musical. A partir de domingo, 1º de fevereiro, a formação entra em um novo ciclo até o mês de abril, que inclui oficinas de Comunicação Estratégica, Formação de Público, Cenografia e Gestão Teatral, ampliando o olhar também para os bastidores, a circulação e a viabilidade dos fazeres artísticos.

Para o coordenador do Coletivo Subverso das Artes, Zaya Olugbala, além do desenvolvimento técnico, a residência oferece um espaço de possibilidades, lazer, descobertas, conexões e criações. “O processo tem sido rico e as pessoas têm participado de maneira ativa. Ao longo das oficinas, conseguimos conhecer formas de criar, acompanhar a produção dos colegas e compartilhar as próprias criações. A iniciativa promove a multiplicação de conhecimentos por meio da formação, do contato com diferentes profissionais das artes e com diversos espaços culturais, além de apontar caminhos para tornar os fazeres artísticos viáveis do ponto de vista da execução”, pontua.

PALCO DE OPORTUNIDADES – Moradora do Engenho Velho da Federação, a residente Betânia Novaes, de 37 anos, conta que foi atraída pela proposta de usar o teatro como um espaço real de investigação e crítica, aliada à possibilidade de vivenciar uma formação profunda com o suporte da bolsa de incentivo. “É o tipo de fomento que valida o nosso tempo de pesquisa e possibilita que artistas como eu possam se dedicar integralmente a esse processo de amadurecimento técnico e artístico. O nome Ordem Questionada já traz, por si só, um convite para refletirmos sobre as estruturas que nos cercam, e eu buscava justamente um ambiente de criação coletiva que valorizasse esse olhar transformador”, revela a atriz.

Interessada nas áreas de roteiro e produção, Betânia, que já atuou em projetos teatrais, audiovisuais e produções independentes, destaca que a residência oferece o que há de mais valioso nas artes: a rede de contatos e o refinamento técnico, abrindo portas para futuras parcerias. “Esse processo de laboratório me permite errar, testar e descobrir novas possibilidades para a minha própria cena, o que é fundamental para quem deseja se profissionalizar no teatro hoje. Sinto que sairei daqui com ferramentas muito mais sólidas para gerir meus projetos autorais e para ocupar espaços na cultura com propriedade e consciência do meu papel social”, avalia.

ESCUTA ATIVA – Nas aulas de Direção Musical, o facilitador Maurício Lourenço conduz dinâmicas de regência, criação rítmica, jogos de liderança, improvisação guiada e construção de arranjos a partir da troca, da organização coletiva do som e da leitura sensível do grupo. O objetivo é que os participantes compreendam a música como prática colaborativa e desenvolvam responsabilidade, expressão e consciência artística. “Espaços como esse transformam a arte em ferramenta de inclusão, pertencimento, expressão política e construção de novas perspectivas de futuro, despertando nos jovens novas referências, autoestima, senso crítico e o reconhecimento do próprio potencial artístico”, afirma.

Segundo Maurício, foi possível perceber uma evolução significativa na postura, no envolvimento e na confiança dos alunos, que hoje atuam com mais autonomia, escuta e proatividade. “Ao chegarem às oficinas, os jovens traziam vivências marcadas por desafios sociais, experiências artísticas informais e o desejo de serem ouvidos, além da expectativa de encontrar na arte um espaço de pertencimento, expressão e possibilidade de transformação pessoal e coletiva”, explica.

Enquanto isso, a professora de Atuação, Diana Ramos, ressalta a importância de estimular o desejo de continuidade para que a residência não seja uma experiência isolada. “Nas aulas, tenho incentivado a autonomia da criação, encorajando para que os jovens sejam autores de suas criações, tirando projetos da gaveta e possibilitando que não estejam sempre à espera de alguém de fora para valorizar suas ideias. Essa provocação pretende desafiá-los a produzir suas criações como parte do processo de amadurecimento artístico. É preciso começar de algum lugar, errando e refazendo, até que suas vivências se conectem às de outras pessoas”, aconselha Diana.

RESULTADO DO APRENDIZADO – A próxima etapa do projeto, “Circula e Questiona”, é dedicada à criação, laboratório e circulação das peças teatrais resultantes das oficinas. Serão criados e apresentados espetáculos nos bairros participantes, garantindo a materialização do processo formativo e o compartilhamento das produções nas comunidades de Engenho Velho da Federação, Engenho Velho de Brotas, Nova Brasília, Candeal e Santo Inácio.

Ao longo de seis meses, a residência “Qualificando a Desordem”, primeira etapa formativa do projeto “Ordem Questionada”, pretende consolidar um espaço de troca e construção coletiva, fortalecendo redes entre artistas, educadores e comunidades. Para além de formar novos criadores, o projeto reforça a arte como ferramenta de transformação social e afirmação de identidades negras em Salvador. O projeto tem duração total de oito meses, incluindo residência, produção e circulação.

O projeto “Ordem Questionada” foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.

AGENDA RESIDÊNCIA

31 DE JANEIRO (SÁBADO)

Oficina: Atuação

Professor: Diana Ramos

Horário: 09 às 12h

Local: Casa das Histórias de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

 

Oficina: Direção Teatral

Professor: Fábio Vidal

Participações: Professores Maurício Lourenço (Direção Musical) e Diana Ramos (Atuação)

Horário: 13h às 16h

Local: Casa das Histórias de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

 

1º DE FEVEREIRO (DOMINGO)

Oficina: Cenografia

Professor: Clara Matos

Horário: 09 às 11h

Local: Casa das Histórias de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

 

FICHA TÉCNICA – ORDEM QUESTIONADA

Realização do Coletivo Subverso das Artes. A coordenação do coletivo é formada por Laura Sacramento e Zaya Olugbala. A coordenação geral está sob a responsabilidade de Juliana Sousa, com direção executiva de Cleise Almeida e assistência de coordenação de Joice Salles. Na área de comunicação, a coordenação é de Juliana Sousa, com social media de Stella Maria e assessoria de imprensa da Viva Comunicação Interativa, sob a responsabilidade de Tatiane Freitas. A identidade visual e o design gráfico são assinados por Fred Amazonas. A fotografia e a filmagem são de Amanda Chung.

 

Fotos: Amanda Chung

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.