

Salvador foi fundada por Tomé de Souza no dia 29 de março de 1549. A partir daí, até 1763, durante 214 anos, foi o centro administrativo, político e econômico da colônia portuguesa nas Américas. Os monumentos de seu centro histórico e a beleza da cidade, principalmente após as reformas urbanas dos últimos anos, tudo emoldurado pela bela Baía de Todos os Santos, transformou Salvador numa das mais belas cidades do Brasil.
Mas o que mais tem encantado os turistas que nos visitam, em número crescente a cada ano que passa, é a alegria e o modo de viver dos baianos, o que se pode atestar pelos depoimentos que eles dão em suas entrevistas em todos os meios de comunicação.
Em 1960 eu, aos 18 anos de idade, morei no Rio de Janeiro como cadete da Aeronáutica, no lendário Campo dos Afonsos. Apesar do povo do Rio adorar as músicas dos meus conterrâneos, principalmente Assis Valente e Dorival Caymmi, e de ver os programas musicais de rádio serem invadidos pelos lindos acordes da bossa nova, puxados pela linda canção Chega de Saudade, do também baiano João Gilberto, eu não entendia por que os cariocas faziam tanta piada com os baianos.
Diziam que “televisão de baiano era janela de trem”, os blocos de concreto colocados nas avenidas para orientar o tráfego de veículos era chamado de “gelo baiano” e que baiano a partir do meio-dia “virava a braguilha da calça para traz”, e outras tantas. Todos os dias, pouco antes do desfile militar da Escola de Aeronáutica, que ocorria diariamente ao meio-dia, um grupo de colegas me cercavam dizendo: “baiano, está na hora de virar a braguilha da calça para trás”. Numa turma de 220 alunos só dois eram da Bahia e eu levava na esportiva, mas ficava incomodado.
Pensava comigo, só pode ser inveja da Bahia. Não entendia o porquê, já que eles mantinham a Ala da Baianas, a mais bela das alas, nos desfiles das Escolas de Samba. O Brasil tinha assistido, em pleno Maracanã, o Bahia sagrar-se o primeiro campeão brasileiro de futebol. Na época já tentavam, sem sucesso, copiar a nossa capoeira dos mestres Bimba e Pastinha. Depois tentaram imitar o Filhos de Gandhi no carnaval, e não deu certo. Agora se assustam com a possibilidade de o Bahia superar o Flamengo no futebol. Não acredito que isso venha acontecer, mas os outros três grandes times do futebol fluminense da série A já ficaram para trás.
As brincadeiras nunca afetaram o bom relacionamento dos baianos com os cariocas e as cidades mudaram muito com o passar dos tempos, lá e cá. Os fluminenses, os paulistas, os mineiros, enfim, todos os brasileiros adoram passar as férias ou visitar a Bahia. A Bahia continua sendo a Terra da Felicidade, nomeada na canção Baixa dos Sapateiros do carioca Ary Barroso, e o Rio continua sendo a Cidade Maravilhosa que encanta a todos os brasileiros. Voltei a residir no Rio em 1979 por mais seis anos e as brincadeiras de mau gosto tinham sumido. O Rio não era mais a Capital.
O carnaval do Rio mudou para o Sambódromo, onde desfilam as Escolas de Samba. Em Salvador, Dodô e Osmar inventaram o Trio Elétrico, a máquina de fazer alegria que ganhou o mundo. Salvador e o Rio de Janeiro cresceram muito. Muitas obras de infraestrutura foram feitas, se fez muitos investimentos urbanos, a mobilidade melhorou, mas ainda persiste uma semelhança que incomoda as duas cidades mais belas e alegres do Brasil: a pobreza e a criminalidade.
Salvador manteve seus traços culturais e a mudança da Capital para o Rio de Janeiro não foi capaz de alterar sua vida. Todos que nos visitam apreciam a culinária baiana, adoram nossa música, se sentem felizes ao participarem das nossas festas. A Lavagem do Bonfim, uma fantástica caminhada entre duas igrejas símbolos do cristianismo, todos vestidos de branco, está cada ano melhor. O Carnaval está muito organizado, acontece em ambiente de alegria e muita paz, a atrai mais e mais turistas a cada ano. A Festa da Virada, o Festival de Verão e as Festas de Largo, estas de tamanho menor, continuam existindo. As visitas ao Pelourinho e a redescoberta do Santo Antonio Além do Carmo, completa o ambiente festivo e aconchegante da Capital da Bahia. A beleza de suas praias e o lindo azul do mar de águas mornas, completam o charme da terra de Todos os Santos e de Todos os Orixás.
Às vezes é preciso escrever sobre essas coisas para meu leitor não ficar pensando que só falo de química, petroquímica, economia e coisas quadradas. Ainda bem que eu não tenho me preocupado com a determinação da quadratura do círculo nem com o cálculo da área do paraboloide hiperbólico.
Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.)