

A estrutura conhecida como “passarela do apartheid” voltou ao circuito Barra-Ondina para o Carnaval deste ano em Salvador, reacendendo debates sobre exclusão e acessibilidade na festa. A passarela, que liga o Morro do Ipiranga ao Camarote Glamour, já está em estágio avançado de montagem, segundo imagens recentes, e retorna após gerar polêmicas e disputas judiciais em 2025.
Criada para facilitar o acesso de foliões que pagam pelo camarote, a passarela foi duramente criticada por simbolizar a separação física entre quem participa do Carnaval na rua e quem consome a festa em espaços privados. O apelido “passarela do apartheid” se popularizou nas redes sociais e passou a ser usado por artistas, moradores e pesquisadores para denunciar o que consideram um reforço da lógica de exclusão no principal evento popular da cidade.
Em nota, os organizadores do Camarote Glamour afirmaram que a estrutura busca oferecer conforto, organização e segurança ao público que paga até R$ 3.465 por cinco dias de festa. No entanto, ressaltaram que a utilização da passarela depende de autorização dos órgãos competentes e que o acesso principal ao camarote se dá pela Avenida Oceânica. A empresa responsável pelo espaço, a Salvador Produções, admite que a passarela pode sofrer restrições de uso ou até não ser liberada durante o Carnaval.
No ano passado, a passarela foi alvo de ação movida pelo Instituto de Arquitetos do Brasil – Seção Bahia (IAB-BA), que questionou a legalidade da obra, a ausência de licenciamento adequado e os possíveis impactos na mobilidade urbana. A Justiça chegou a determinar a interdição da estrutura, mas liberou o uso no dia seguinte após a apresentação de novos pareceres técnicos. O processo, no entanto, ainda não foi julgado definitivamente e aguarda audiência de instrução desde maio de 2025.
O retorno da passarela revive a discussão sobre a crescente divisão no Carnaval de Salvador. Críticos afirmam que a cidade se adapta para garantir conforto e privilégio a poucos, enquanto a maioria enfrenta barreiras físicas e simbólicas para aproveitar a festa, levantando questionamentos sobre o modelo de carnaval urbano e inclusivo que a capital baiana deseja promover.
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