

Um estudo divulgado nesta semana pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) alerta que a substituição da produção automotiva completa no Brasil pela montagem de kits importados pode resultar na eliminação de 69 mil empregos diretos e afetar outros 227 mil postos indiretos ao longo da cadeia produtiva.
De acordo com a entidade, a ampliação do uso dos regimes CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down) traz impactos significativos não apenas sobre o emprego, mas também sobre o setor de autopeças, a arrecadação de tributos e a balança comercial do país.
“O levantamento estima ainda uma perda econômica de até R$ 103 bilhões para os fabricantes de autopeças, além de uma redução de aproximadamente R$ 26 bilhões na arrecadação de tributos em apenas um ano. As exportações de veículos também seriam afetadas, com perdas estimadas em R$ 42 bilhões”, destaca a Anfavea.
No modelo CKD, os veículos chegam ao país totalmente desmontados e passam por etapas como soldagem, pintura e integração de componentes. Já no regime SKD, os automóveis são importados quase prontos, em grandes conjuntos, exigindo uma montagem local mais simples e com menor complexidade industrial.
Atualmente, a montadora chinesa BYD opera no Brasil principalmente no modelo SKD, adotado em sua fábrica de Camaçari, na Bahia, inaugurada no ano passado.
Pressão sobre o governo
Em meados de 2024, o governo federal autorizou uma cota adicional de US$ 463 milhões, com Imposto de Importação zerado, para a entrada de veículos elétricos e híbridos desmontados. A medida, válida até 31 de janeiro deste ano, beneficiou diretamente a BYD e gerou críticas de montadoras tradicionais instaladas no país, como Toyota, General Motors, Volkswagen e Stellantis, representadas pela Anfavea.
Com o prazo de validade próximo do fim, a associação intensificou a pressão para que o benefício não seja renovado.
“SKD e CKD não são processos prejudiciais em si. Muitas montadoras iniciaram suas operações no Brasil por esses modelos. O problema é manter incentivos para a simples montagem em alto volume, sem exigência de conteúdo nacional, o que ameaça a sobrevivência de uma indústria de alta complexidade e a geração de empregos qualificados”, afirmou o presidente da Anfavea, Igor Calvet.
Segundo ele, o setor está preparado para competir, desde que as condições sejam equivalentes. “Não tememos a concorrência. O que buscamos é um ambiente competitivo justo, com regras iguais para todos”, ressaltou.
Em manifesto publicado em seu site, a Anfavea reforçou a posição contrária à renovação da isenção para importação de kits desmontados em larga escala. “Pode parecer uma solução vantajosa no curto prazo, mas não constrói uma indústria forte nem desenvolve cadeias locais. No longo prazo, fragiliza o que levou décadas para ser construído”, afirmou a entidade.
Procurada pela Agência Brasil, a BYD não se manifestou. Já o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que o sistema de cotas para importação de CKD e SKD termina neste mês de janeiro e que, até o momento, não há pedidos formais de renovação.
Foto: Divulgação/BYD



