

A pesquisa, realizada pela oncologista Mônica Kalile, na Fiocruz Bahia, revela que a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) apresenta respostas que superam quase três vezes os tratamentos convencionais, além de reduzir em mais de 50% a necessidade de retirada do esfíncter e o uso permanente da colostomia
Pesquisa foi apresentada na ASCO GI 2026, um dos mais importantes encontros científicos mundiais em oncologia gastrointestinal, realizado pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica, em São Francisco, na Califórnia (EUA), de 8 a 10 de janeiro
Problema de saúde pública com incidência crescente em todo mundo, o câncer colorretal se tornou o segundo tipo de tumor mais incidente entre homens e mulheres no Brasil (sem considerar os canceres de pele não melanoma). O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima mais de 45 mil novos casos da doença a cada ano no país. Na Bahia, são estimados 1.940 novos casos da doença anualmente. Globalmente, a previsão da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) é que o número de novos casos suba de cerca de 1,9 milhão, em 2020, para 3,2 milhões por ano até 2040, um aumento projetado de 63% na incidência global.
Aumentar a eficácia dos tratamentos e a sobrevida dos pacientes e reduzir os impactos do tratamento são alguns dos desafios no combate ao câncer colorretal ou câncer de intestino. A retirada cirúrgica do esfíncter anal e a colostomia temporária ou permanente indicada em alguns casos específicos afetam a qualidade de vida dos pacientes com inúmeros impactos e repercussões físicas, emocionais, sociais e sexuais.
Em Salvador, a oncologista baiana Mônica Kalile realizou estudo inédito comparando a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) com terapias convencionais em pacientes com adenocarcinoma de reto localmente avançado. O adenocarcinoma é o tipo histológico mais comum de câncer colorretal, representando mais de 90% dos casos. O estudo, que é resultado de um trabalho de mestrado apresentado pela médica na Fiocruz Bahia, teve como orientador o doutor em Saúde Pública e pesquisador, Carlos Teles, e como coorientador, o oncologista e doutor em ciências, Bruno Protásio.
A pesquisa retrospectiva incluiu 137 pacientes tratados entre janeiro de 2019 e agosto de 2023 em dois centros oncológicos: o Núcleo de Oncologia da Bahia (Oncoclínicas) e o Hospital Santa Izabel. Os pacientes foram divididos em dois grupos: 60 receberam TNT e 77 foram tratados com terapia Não-TNT. Os resultados mostraram que o grupo que recebeu o Tratamento Neoadjuvante (TNT) apresentou uma taxa de resposta completa de 28,3%, comparada a 11,6% no grupo que foi tratado com terapias convencionais (Não-TNT). A taxa de resposta patológica completa foi de 20,0% no grupo TNT contra 7,8% no grupo convencional. Além disso, observou-se uma tendência à maior preservação esfincteriana nos pacientes com câncer de reto distal tratados com TNT, aproximadamente o dobro. As taxas de toxicidade clínica e hematológica foram semelhantes entre os grupos, reforçando a segurança da abordagem intensificada.
“As taxas de resposta completa – clínica e patológica – foram significativamente superiores no grupo tratado com a TNT, com taxas quase três vezes maiores”, afirma a oncologista e pesquisadora Mônica Kalile.
“Esses achados sugerem que a TNT pode ser uma estratégia eficaz para aumentar a taxa de resposta completa e, potencialmente, reduzir a necessidade de ostomias definitivas em pacientes com câncer de reto distal”, ressalta. “A preservação do esfíncter anal representa um avanço importante não apenas do ponto de vista clínico, mas também na qualidade de vida dos pacientes”, acrescenta Mônica Kalile.
Novos estudos com maior número de participantes e acompanhamento prolongado são essenciais para confirmar esses resultados e avaliar seu impacto na sobrevida global.
Destaque internacional
A pesquisa intitulada “Impacto da Terapia Neoadjuvante (TNT) na resposta geral completa do câncer de reto localmente avançado: um estudo brasileiro” foi apresentada no Simpósio de Cânceres Gastrointestinais (ASCO GI 2026), que aconteceu em São Francisco, na Califórnia (EUA), de 8 a 10 de janeiro. O evento, um dos principais encontros científicos internacionais em oncologia gastrointestinal, é realizado pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica.
Terapia Neoadjuvante Total (TNT)
É uma terapia inovadora indicada para o tratamento do câncer retal localmente avançado. A TNT intensifica o tratamento antes da cirurgia, combinando quimioterapia sistêmica e quimiorradioterapia para reduzir o tamanho do tumor e das metástases antes do procedimento cirúrgico, com o objetivo de melhorar a resposta ao tratamento, preservar o esfíncter anal, evitar a colostomia, e aumentar a sobrevida.
Nos últimos anos, estudos internacionais como OPRA, RAPIDO e PRODIGE 23 introduziram a Terapia Neoadjuvante Total (TNT) como estratégia para abordagem do câncer retal localmente avançado.
Câncer Colorretal: doença do estilo de vida
Considerada uma doença do “estilo de vida”, o câncer colorretal está associado aos hábitos alimentares, como consumo excessivo de ultraprocessados, embutidos, carnes vermelha, gorduras e açúcar, além de fatores como sedentarismo, obesidade e tabagismo. Segundo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo excessivo de carnes vermelhas, gorduras, embutidos, processados e refinados, como salsicha, linguiça, bacon e presunto aumentam o risco do câncer do intestino. “O consumo de alimentos naturais, frescos e ricos em fibras, como frutas, vegetais, grãos integrais e oleaginosas é um fator de proteção contra o câncer colorretal”, orienta Mônica Kalile. “Descascar mais, desembrulhar menos”, lembra a médica.
Além dos hábitos pouco saudáveis, o histórico familiar, inflamações intestinais crônicas e presença de pólipos no intestino são fatores de risco para o câncer colorretal.
Rastreamento: importância da colonoscopia
O câncer colorretal, ou câncer de intestino, abrange os tumores que se desenvolvem na parte do intestino grosso chamada cólon e na sua porção final, o reto. 90% dos casos da doença se originam a partir de pólipos (lesões benignas que se desenvolvem na parede interna do órgão). A realização do exame de colonoscopia é a forma mais eficaz de diagnosticar esses tumores. Trata-se de um exame endoscópico do intestino grosso – cólon e reto – onde é introduzido um tubo com uma câmera na extremidade, permitindo detectar e remover pólipos ou tumores malignos em diversos estágios. A orientação é que o exame seja realizado, a primeira vez, entre os 45 a 50 anos, e repetido a cada cinco ou dez anos, de acordo com indicação médica, para pessoas assintomáticas e sem fatores de risco, ou seja, sem histórico de câncer de intestino ou pólipos na família, e doença inflamatória intestinal.
Nos casos de pacientes com histórico familiar e fatores de risco para a doença, é importante que o rastreamento comece mais cedo, justamente para que o paciente tenha todo acompanhamento médico necessário.



