

Acontece neste sábado, 17 de janeiro, a primeira saída oficial do Bloco Alfabeta, cujo desfile nasce para reafirmar o samba como território da diversidade sob a ótica LGBTQIAPN+. Aberto ao público e totalmente acessível, o evento tem início a partir das 15 horas, com concentração na Rua do Meio (Praça Brigadeiro Faria Rocha, Rio Vermelho). Logo após o desfile em direção ao Largo da Mariquita, a celebração se desloca para a Casa Rosa (Praça Colombo, 106), onde a Festa da Apósteose marca o after do bloco com um lineup escolhido para refletir a potência da cultura negra e periférica, das 18 às 23 horas. A Apósteose vai reunir o artista Portella Açúcar, ícone do Centro Histórico e do Cortejo Afro; a Casa Criola, que leva a energia política da Ballroom e do Vogue para a pista; e a DJ Nate Monaco, colecionadora e pesquisadora musical que busca fundir a diversidade dos sons brasileiros.
Diferente de um pós-carnaval comum, a Apósteose promete consolidar o dia como um marco de pertencimento e “close coletivo” em Salvador e é concebida como um ato simbólico e cultural de ocupação, celebração e acessibilidade radical. O compromisso social dita o tom da festa desde a bilheteria. Com ingressos disponíveis na plataforma Sympla a partir de R$ 50, a estrutura da Casa Rosa contará com audiodescrição, intérpretes de Libras e suporte total para pessoas com deficiência motora, reafirmando que, para o Alfabeta, a acessibilidade é a base do projeto e não um acessório.
Sem abrir mão da criação autoral, o Grupo Recreativo de Ocupação Lacrativa Alfabeta traz em seu DNA o resgate do protagonismo de figuras históricas do samba cujas identidades foram muitas vezes silenciadas. Entre elas o carioca Ismael Silva (1905-1978), amplamente reconhecido como o inventor do termo “escola de samba” e um dos principais fundadores da “Deixa Falar”, considerada a primeira agremiação do Brasil (1928), e o baiano santoamarense Assis Valente (1911-1958), famoso por sucessos como “Camisa Listrada”, “Brasil Pandeiro”, “Boas Festas” (Anoiteceu) e “Cai cai, balão”. Para Adriano Marques, idealizador do projeto, o Alfabeta é um bloco para todo mundo, mas feito por e para a comunidade LGBT+, para contar a história que o machismo e a LGBTfobia tentaram apagar.
Comprovando que o Alfabeta chega para provar que a folia baiana pode e deve ser um espaço de pertencimento absoluto, sua estreia nas ruas vai trazer muitas surpresas, como a presença do ator e modelo surdo Maurício Rosário, que será o porta-bandeiras e é também o responsável pela criação do sinal oficial do bloco em Libras. A comissão de frente contará com a presença de pessoas com deficiência auditiva coreografadas por Alisson George, mestre em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Consolidada por uma bateria inclusiva com a presença de percussionistas com deficiência, o ineditismo também se expressa no repertório musical, que inclui sambas com dissidências sexuais e de gênero, como “Camisa Listrada”, de Assis Valente; “Vale um Samba”, da sanfoneira, cantora e compositora contemporânea Talita Avelino; e do próprio samba-enredo do bloco. “Resgatar algumas dessas obras é fortalecer um patrimônio LGBT+ no samba e permitir releituras críticas fora dos padrões heteronormativos”, analisa Adriano Marques.
Essa mesma lógica de acessibilidade radical e inclusão se estende à comunicação digital, pois o perfil oficial do bloco no Instagram (@blocoalfabeta) é inteiramente pensado para ser acessível. Todas as postagens em carrossel contam com texto alternativo e audiodescrição, vídeos possuem tradução em Libras, e há conteúdos exclusivos organizados para garantir autonomia de acesso a pessoas cegas e surdas.
O Alfabeta foi contemplado nos Editais Paulo Gustavo com aporte financeiro do Governo do Estado da Bahia e conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura do Governo Federal. A iniciativa também é apoiada pela Superintendência da Pessoa com Deficiência da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do governo estadual, pela Secretaria Municipal da Reparação da Prefeitura de Salvador e pela Casa Rosa Salvador.
Pesquisa acadêmica
A iniciativa do Alfabeta é estudada pela pesquisadora baiana Juliana Feitoza, aluna especial do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania da Universidade de Brasília (UnB). Sua pesquisa de mestrado investiga as conexões entre o direito de ser, estar e permanecer e a construção da cidadania LGBT+, articuladas ao marcador social da deficiência, tendo o bloco como estudo de caso.
“Minha investigação parte do direito de ‘resistir e re-existir’ das pessoas LGBT+ com deficiência, a partir da minha própria perspectiva enquanto mulher com deficiência”, explica Juliana Feitoza, que desenvolveu seus estudos com a professora Silvia Badim e com James Green, professor emérito da Brown University e referência internacional nos estudos sobre história LGBT+ no Brasil.
Formada em Direito pela UFBA, ex-defensora pública federal e hoje consultora legislativa da Câmara dos Deputados, a pesquisadora destaca que o diferencial do Alfabeta está na prática cotidiana da inclusão. O bloco promove vivências educativas, ensaios percussivos abertos e planeja sua ocupação do espaço urbano com a acessibilidade como princípio. “Há PCDs entre os integrantes e prioridade explícita na organização do desfile”, afirma.
Para a pesquisadora, o Alfabeta dá ao Carnaval um propósito social de transformação e conscientização, ao afirmar o direito à rua e à presença da comunidade LGBTQIAPN+. Para ela, quando essa reivindicação se articula à deficiência, reforça a cidadania de sujeitos historicamente atravessados por múltiplas exclusões.
Programação:
(Divulgação)