

A convulsão sofrida pelo ator Henri Castelli (47) durante uma prova do Big Brother Brasil 26, na última quarta-feira (14), reacendeu um alerta importante: nem toda crise convulsiva significa epilepsia. Após ser atendido pela equipe médica do programa e retornar à casa, o participante voltou a passar mal horas depois e precisou de novo atendimento. Segundo a produção, ele está bem e segue em observação. O episódio, acompanhado por milhões de telespectadores, virou um gancho para esclarecer uma confusão comum — e potencialmente perigosa — entre uma crise isolada e a doença neurológica crônica.
Crises convulsivas podem ocorrer em qualquer pessoa, em diferentes fases da vida, e por motivos variados. Já a epilepsia é uma condição médica caracterizada por crises recorrentes, sem causa imediata aparente. A distinção é fundamental para o diagnóstico correto e para evitar estigmas desnecessários.
Crise convulsiva: o que é e por que acontece
Segundo o neurologista Ricardo Alvim, coordenador do Serviço de Neurologia do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS), uma crise convulsiva acontece quando há uma descarga elétrica anormal e excessiva no cérebro, provocando sintomas como perda de consciência, movimentos involuntários, rigidez muscular e, em alguns casos, confusão mental após o episódio. Febre alta, desidratação, privação de sono, uso de álcool ou drogas, infecções, alterações metabólicas e até situações de estresse intenso podem desencadear uma convulsão isolada.
“O cérebro pode reagir a agressões momentâneas com uma crise convulsiva, sem que isso signifique uma doença neurológica crônica”, explica o especialista. “Em muitos casos, após investigação, o paciente nunca mais apresenta outro episódio”, completa. Uma convulsão única exige avaliação médica, exames complementares e acompanhamento neurológico, mas não necessariamente significa o diagnóstico de epilepsia. O uso de medicação anticonvulsivante precisa ser avaliado de forma individual.
Epilepsia: quando a crise vira diagnóstico
A epilepsia é definida pela ocorrência de duas ou mais crises não provocadas, em momentos distintos, sem uma causa imediata identificável. Trata-se de uma condição neurológica crônica, que pode ter origem genética, estrutural, infecciosa ou desconhecida.
“Na epilepsia, o cérebro tem uma predisposição persistente a gerar crises”, afirma o coordenador da UTI Neurológica do HMDS, Jamary Oliveira Filho. “É diferente de uma convulsão desencadeada por febre, hipoglicemia ou exaustão. O tratamento é contínuo e individualizado”.
Os sintomas variam. Nem toda crise epiléptica envolve convulsões. Algumas se manifestam como lapsos de consciência, olhar fixo, movimentos repetitivos ou sensação de déjà-vu.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico é feito a partir da história clínica, exame neurológico, eletroencefalograma (EEG) e exames de imagem, como a ressonância magnética. No caso de crises isoladas, o foco é identificar a causa e evitar novos gatilhos.
Já na epilepsia, o tratamento costuma incluir medicamentos anticonvulsivantes de uso contínuo, e, em casos específicos, cirurgia ou terapias complementares. “Com o tratamento adequado, a maioria das pessoas com epilepsia pode ter uma vida plenamente ativa. O maior desafio ainda é o preconceito”, destaca Alvim.
Como agir durante uma convulsão
Diante de uma crise convulsiva, a orientação é manter a calma e priorizar a segurança da pessoa. O ideal é colocá-la de lado, para evitar aspiração de saliva, afastar objetos que possam causar ferimentos e proteger a cabeça. Não se deve tentar segurar os movimentos, nem colocar objetos na boca.
“Intervenções inadequadas podem causar mais danos do que a própria crise”, alerta Jamary. “Se a convulsão durar mais de cinco minutos, ocorrer em sequência ou se a pessoa não recuperar a consciência, é fundamental acionar o serviço de emergência”, orienta.
Prevenção e atenção aos sinais
Dormir bem, manter uma alimentação equilibrada, evitar álcool em excesso e seguir corretamente o uso de medicamentos são medidas importantes para reduzir o risco de crises. Em pessoas com epilepsia, a adesão ao tratamento é decisiva para o controle da condição.
O caso de Henri Castelli, ainda sem diagnóstico divulgado, mostra como episódios desse tipo podem acontecer até em pessoas aparentemente saudáveis. Mais do que gerar especulações, situações como essa ajudam a informar, orientar e quebrar mitos.
Crédito Valter Andrade