

Os mil primeiros dias de vida, que incluem a gestação, o nascimento, o primeiro ano e a transição para o segundo, são reconhecidos mundialmente como o período mais determinante do desenvolvimento humano. É nesse intervalo que se formam estruturas cerebrais, vínculos afetivos, padrões emocionais, hábitos alimentares e modos de perceber o mundo que acompanharão a criança por toda a vida. Quando ela chega à escola, não traz apenas uma mochila. Traz os efeitos de tudo o que viveu nesses mil dias: o olhar que a acolheu, o colo que respondeu ao choro, a voz que acalmou, as rotinas de sono, a qualidade das interações e a segurança construída na relação com seus pais. Segundo Virginia Lucas, psicopedagoga e Diretora do Colégio Anchieta, unidade Aquarius, o trabalho educativo começa quando a instituição se dispõe a escutar o que a criança traz. “Essa escuta nem sempre acontece pelos ouvidos. Muitas vezes, é uma escuta de olhar, de gesto e de presença. Escutar os responsáveis, compreender o percurso de cada criança e identificar as características emocionais e comportamentais que se formaram nos primeiros anos são passos essenciais para promover um cuidado sensível e individualizado”, afirma.
Nos mil primeiros dias, o cérebro infantil vive um ritmo acelerado de formação de conexões neurais. Cada toque, cada resposta ao choro, cada troca afetiva ajuda a construir a base da confiança, da comunicação e da autonomia. Por isso, quando a comunicação verbal ainda é limitada, a criança se expressa por gestos, comportamentos, silêncios e movimentos. A escola, ao observar essas linguagens, torna-se continuidade do ambiente de segurança emocional iniciado no lar. A parceria entre família e escola também se mostra fundamental na construção de hábitos e cuidados essenciais. Um dos elementos estruturantes nos primeiros mil dias, e que se prolonga no ambiente escolar, é o brincar. “Através das brincadeiras, sobretudo do brincar livre, a criança organiza emoções, explora o mundo, desenvolve coordenação motora, raciocínio e criatividade. Para muitas, o ambiente escolar é o primeiro espaço onde o brincar ganha intencionalidade pedagógica e se torna oportunidade de desenvolvimento pleno”, conclui Virginia.
A chegada à escola marca, muitas vezes, a primeira grande separação entre a criança e sua família. A maneira como esse processo é conduzido influencia diretamente a experiência emocional dos pequenos. Por isso, o acolhimento, a adaptação gradual e a construção de vínculos com os educadores são fundamentais para que a criança sinta segurança e consiga explorar o novo ambiente com confiança. A educação infantil, nesse sentido, assume o compromisso de cuidar da infância desde sua origem invisível, aquela que começa muito antes da matrícula. Ao reconhecer a importância dos mil primeiros dias, a escola se torna um espaço que amplia repertórios, fortalece vínculos e apoia o desenvolvimento emocional, cognitivo e social de forma integrada.
Fotos: Acervo Colégio Anchieta



