sábado, 03 de janeiro de 2026
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AÇÕES DOS EUA CONTRA VENEZUELA SÃO RECADO PARA A AMÉRICA LATINA CONTRA A CHINA, AVALIA DIPLOMATA VENEZUELANO

João Paulo - 03/01/2026 06:59 - Atualizado 03/01/2026

A pressão comandada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Venezuela — com a realização de ataques neste sábado — busca enviar um recado estratégico aos parceiros latino-americanos da China, em um momento que Washington vê o domínio do Hemisfério Ocidental como imperativo de sua própria segurança nacional. Essa é a avaliação do diplomata venezuelano Alfredo Toro Hardy que, em artigo recente, afirma que a disputa por trás da ofensiva americana contra Caracas é a competição com Pequim.

Muitos têm se indagado sobre a suposta passividade do governo chinês, que há anos é considerado um dos principais parceiros de Caracas no cenário internacional. Mas por que a Venezuela? Em artigo recente, o diplomata dá a pista: em primeiro lugar, a dívida do país com Pequim supera US$ 60 bilhões (mais de R$ 300 bilhões, na cotação atual), quase metade do financiamento chinês para toda a América Latina. Significa que as maiores reservas de petróleo do mundo estão “hipotecadas” para a China nos próximos anos, algo que incomoda Washington.

Além disso, o governo de Nicolás Maduro “comprou o pacote inteiro da China”, incluindo o alinhamento geopolítico total com Pequim — e não apenas o econômico, como fizeram outros países do continente.

Oficialmente, Pequim tem criticado a ação americana sem desviar do manual clássico da sua diplomacia: repúdio à intervenção, pedido de respeito à soberania, apelo ao multilateralismo. Em conversas reservadas, porém, percebe-se um cálculo de ganhos possíveis. Ao lado da preocupação com a indesejada instabilidade econômica da tensão militar, a ação americana é vista como mais uma etapa bem-vinda do desgaste à imagem internacional dos EUA.

Como quem não quer nada, o governo chinês convidou a Pequim no ano passado representantes dos 33 países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). No início do ano, logo após a posse de Trump, os embaixadores do continente em Pequim foram convocados para um encontro com o vice-chanceler Miao Deyu, cuja mensagem diante das intimidações do presidente americano se resumiu num apelo: “Resistam”.

A truculência de Trump — de patadas em jornalistas (quase sempre mulheres) até as chantagens da guerra tarifária e a pressão naval sobre a Venezuela — acentua os contornos do retrato que a China promove dos EUA como a superpotência do bullying. Para Pequim, isso é particularmente útil no empenho para se consolidar como líder do Sul Global, onde a queda na cotação dos EUA pode render dividendos políticos.

Caracas virou o marco zero ideal para a chamada “Doutrina Donroe”, a versão trumpista da Doutrina Monroe do século XIX, quando os EUA estabeleceram o Hemisfério Ocidental como esfera de influência. Ocorre que a China também vê na América Latina sua zona de influência, como parte do Sul Global. Com cautela estratégica para não aumentar o atrito com os EUA, o apelo não é militar, mas sobretudo econômico. Desde 2000, o comércio da América Latina com a China cresceu 40 vezes. A ironia, observa Hardy, é que com suas políticas agressivas, Trump “empurra a região para os braços da China como nenhum de seus antecessores jamais fez”.

 

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