

Como psicóloga, considero fundamental reforçar que dar o passo inicial e buscar ajuda é uma atitude de enorme coragem, mas é apenas o começo de uma jornada. O cuidado com a saúde mental é um processo contínuo e não deve ser interrompido no momento em que os sintomas mais agudos diminuem ou quando a pessoa aparenta, externamente, estar melhor.
A verdadeira transformação acontece na constância. Na psicoterapia, construímos um espaço seguro para compreender as raízes profundas do sofrimento, identificar os gatilhos que aumentam a vulnerabilidade e desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com as emoções e as adversidades do cotidiano. A continuidade do acompanhamento não apenas fortalece a autonomia e amplia os recursos emocionais do indivíduo, mas também atua diretamente na consolidação de vínculos e na prevenção de novas crises.
Nesse cenário, a rede de apoio exerce um papel determinante. Familiares e pessoas próximas nem sempre precisam ter respostas prontas, mas devem oferecer uma escuta empática. Acolher sem julgamentos, evitar frases simplistas que invalidam a dor alheia, respeitar o tempo individual de quem está sofrendo e incentivar a permanência no tratamento são atitudes concretas que fazem toda a diferença no processo de restauração do bem-estar.
O Setembro Amarelo cumpre uma função nobre ao ampliar a conscientização e abrir espaço para o diálogo sobre a prevenção do suicídio. Contudo, a saúde mental não se limita a um único mês do calendário. A atenção, o suporte e a prevenção precisam acontecer durante todo o ano, integrando-se à nossa rotina social e familiar.
Cuidar da mente é um compromisso diário, e ninguém precisa carregar o peso dos momentos difíceis sozinho.
Como nos ensina Carl Rogers, psicólogo americano reconhecido como um dos principais nomes da psicologia humanista e criador da Terapia Centrada na Pessoa, “o curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar”. Na vivência da depressão e do sofrimento psíquico, essa aceitação jamais significa conformar-se com a dor, mas sim reconhecer a própria vulnerabilidade e permitir-se receber ajuda. A psicoterapia surge exatamente para abrir esse caminho, oferecendo acolhimento técnico, afeto e novas possibilidades de futuro para quem, no momento presente, ainda não consegue enxergá-las.
Mirella Martins Lippi é psicóloga da Clínica SiM e especialista em Psicanálise, Neurociências e Comportamento, e em TCC.