

As decisões tomadas nesta Superquarta (16) pelo Comitê de Política Monetária, no Brasil, e pelo Federal Open Market Committee, nos Estados Unidos, reforçam a divergência entre as duas maiores economias das Américas. O Banco Central brasileiro reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano – corte de 0,25 ponto percentual – dando sequência ao ciclo de flexibilização iniciado em março. Já o Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano.
O Brasil, no entanto, não está numa posição totalmente confortável, pois as próximas decisões do Copom dependem em parte da situação das finanças públicas e sobretudo da eleição presidencial e da expectativa em torno da política fiscal do governo que assumirá em 2027. Para o economista-chefe da Pequod Investimentos, Diogo Almeida, “a permanência dos desequilíbrios fiscais pode pressionar o câmbio e as expectativas de inflação, interrompendo o ciclo de cortes da Selic já em novembro e dezembro próximos. Por outro lado, uma melhora na percepção sobre as contas públicas teria impacto baixista sobre a curva de juros”.
Quanto à diferença de direção, no momento, entre Brasil e EUA, o especialista explica que o quadro reflete panoramas econômicos distintos: “No Brasil, os indicadores divulgados desde a última reunião do Copom, em agosto, reforçaram a percepção de que o período prolongado de juros restritivos começa a produzir efeitos mais intensos. O PIB do segundo trimestre trouxe uma queda de 0,4% do consumo das famílias e, em julho, o setor de serviços ficou estagnado, o varejo recuou 0,8% e a produção industrial registrou variou 0,2% após dois meses de forte queda. No mercado de trabalho, a criação de empregos formais em julho caiu 54,9% na comparação anual, marcando o pior julho desde a pandemia”.
“A desaceleração do crescimento da demanda agregada aumenta a confiança do Copom de que a inflação poderá convergir para em torno da meta de 3% no 1º trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária. Ainda assim, os núcleos permanecem pressionados e exigem cautela”, afirma.
A inflação corrente também melhorou, mas ainda não permite considerar vencida a pressão sobre os preços. O IPCA acumulava 4,22% em 12 meses até agosto, menor que os 4,64% observados em junho, porém acima da meta de 3%, e a inflação de serviços subjacentes permanecia próxima de 5%. O economista ressalta ainda que o petróleo segue como um dos principais pontos de atenção, diante do risco de transmissão do choque externo para a inflação.
Resiliência do emprego e inflação nos EUA
Nos EUA, o mercado de trabalho e a inflação se mantêm resilientes. A alta de preços permanece acima da meta do Fed (2% ao ano para o núcleo). Em agosto, o CPI, índice de preços ao consumidor, acumulava alta de 3,4% em 12 meses até agosto e o núcleo, 2,4%. Quanto ao emprego, em agosto foram criadas 162 mil vagas, acima da expectativa de 56 mil. Esse panorama se torna mais preocupante diante da escalada dos conflitos no Oriente Médio e seus impactos no petróleo – que chegou a superar os US$ 100 por barril – com reflexos na inflação.
Como fica o cenário para investimentos?
Mesmo com a alta dos juros norte-americanos e a redução da Selic, o diferencial entre as taxas segue próximo de 10 pontos percentuais em favor do Brasil. A combinação de juros elevados e receitas de exportação de commodities continua oferecendo sustentação ao real e mantém a renda fixa como alternativa relevante.
Para pessoas físicas, Almeida avalia que títulos pós-fixados são adequados para recursos de curto prazo e liquidez, enquanto prefixados e indexados à inflação podem capturar ganhos adicionais se a trajetória de queda dos juros se mantiver. A renda variável pode se beneficiar da redução dos juros domésticos, mas exige atenção às incertezas fiscais e eleitorais. No caso das empresas, a orientação do economista é preservar a liquidez do capital de giro em instrumentos pós-fixados de baixo risco e avaliar o alongamento de parte do caixa estrutural em títulos com componentes prefixados.



