

A inteligência artificial deixou de ser uma aposta para se tornar parte da rotina das empresas. Hoje, ferramentas baseadas em IA já apoiam processos de recrutamento, análise de crédito, atendimento ao cliente, avaliação de riscos, elaboração de contratos e tomada de decisões estratégicas. Diante desse novo cenário, uma pergunta ganha força nos principais fóruns internacionais de governança corporativa: quem responde quando a inteligência artificial erra?
O debate, que até pouco tempo estava concentrado no campo da inovação e da tecnologia, passa a ocupar espaço nas agendas dos conselhos de administração e dos especialistas em governança. Mais do que decidir se a empresa deve utilizar inteligência artificial, a discussão agora envolve a definição de critérios para seu uso, mecanismos de supervisão e responsabilidades jurídicas.
Para o advogado Ruy Andrade, especializado em Direito dos Negócios, sócio-fundador da Ruy Andrade Advocacia, Conselheiro de Administração certificado pelo IBGC, professor de Direito Empresarial e consultor de empresas familiares, a inteligência artificial representa uma ferramenta poderosa para aumentar a eficiência e apoiar a tomada de decisões, mas não substitui o dever de diligência dos administradores. “A empresa pode delegar tarefas à inteligência artificial, mas nunca a responsabilidade jurídica. A decisão final continua sendo humana, e é justamente por isso que a governança ganha ainda mais importância nesse novo contexto”, afirma.
Segundo o especialista, os conselhos de administração passam a exercer um papel decisivo na criação de diretrizes para o uso da tecnologia, estabelecendo limites, controles e mecanismos de acompanhamento capazes de reduzir riscos operacionais, reputacionais e regulatórios. “A inteligência artificial não pode funcionar como uma ‘caixa-preta’ dentro das organizações. O conselho precisa compreender onde ela está sendo utilizada, quais decisões estão sendo apoiadas por algoritmos, quais riscos existem e como essas decisões podem ser auditadas.”
Nos principais mercados do mundo, essa mudança já é perceptível. Estudos publicados por instituições especializadas em governança corporativa mostram que a pauta deixou de ser a adoção da IA para se concentrar em sua supervisão. O foco agora está na criação de políticas internas, definição de responsabilidades, proteção de dados, transparência dos processos e prestação de contas aos stakeholders. Na avaliação de Ruy Andrade, esse movimento deve ganhar força também no Brasil, especialmente entre empresas familiares e de médio porte, que vêm acelerando a adoção de soluções baseadas em inteligência artificial, muitas vezes sem uma estrutura formal de governança. “Muitas empresas já utilizam IA em processos importantes sem que o conselho tenha discutido critérios de utilização, protocolos de segurança ou responsabilidades. Esse é um risco que precisa ser enfrentado antes que surjam conflitos ou crises.”
Outro desafio é o preparo dos próprios conselhos para acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas. “Não se espera que todo conselheiro seja um especialista em tecnologia, mas é indispensável que os conselhos desenvolvam capacidade para formular as perguntas certas, compreender os impactos estratégicos da inteligência artificial e avaliar seus riscos. Governança sempre foi sobre tomada de decisão responsável.” Para o especialista, a inteligência artificial não inaugura um novo conceito de responsabilidade, mas reforça princípios clássicos da boa governança corporativa, como transparência, prestação de contas, gestão de riscos e accountability dos administradores. “Empresas que estruturarem esse processo desde agora estarão mais preparadas para inovar com segurança, preservar sua reputação e responder aos desafios que essa transformação impõe”, finaliza.