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JOSÉ MACIEL DOS SANTOS FILHO – O CENÁRIO DO AGRO EM 2024 E O SEGURO RURAL

João Paulo - 05/02/2024 09:22

O ex-ministro da agricultura Roberto Rodrigues e o professor Xico Graziano , da FGV-SP, dois grandes analistas do agronegócio brasileiro, traçaram recentemente um cenário preocupante para o setor agropecuário nacional em 2024.

Com efeito, depois de alguns anos de obtenção de colheitas recordes e preços internacionais elevados, o setor deve sofrer uma queda na safra a ser colhida este ano, com a vigência de preços mais baixos que os padrões históricos recentes observados em parte de nossas commodities agrícolas.

A trajetória da produção agropecuária brasileira nos últimos anos permite constatar que, com a COVID 19,  os países que não são autossuficientes na produção alimentar correram aos mercados internacionais para assegurar os seus suprimentos e garantir a perspectiva de segurança alimentar de suas populações. Como os estoques mundiais estavam baixos, os preços externos dispararam e o agro brasileiro aproveitou e colheu ótimas safras em um contexto de preços elevados. Passado o sufoco da pandemia, os preços , num cenário de maiores estoques, se reduziram , prejudicando internamente a nossa agropecuária , agora com a presença de adversidades climáticas e safras em queda para alguns produtos, sobretudo o milho (que terá uma quebra de 10 % na produção este ano em comparação com a produção obtida em 2023) e, em menor medida, a soja. Outros produtos estão atravessando conjuntura melhor de preços e/ou produção esperada, como se verá mais adiante.

Abrindo um breve parêntese, todos sabem que a segurança alimentar é um objetivo importante em qualquer país, e, quando ameaçada, pode levar inclusive a situações de instabilidade  política e queda de governos. Ainda permanece viva em nossa memória a queda do governo do Sri Lanka há dois anos atrás, quando presidente daquele país lançou um programa equivocado de alcançar a autossuficiência na produção de alimentos na base exclusiva da produção orgânica, proibindo inclusive a importação de fertilizantes químicos. Logo se viu como consequência dessa experiência desastrosa uma queda expressiva da produção de arroz, principal alimento da  população daquele país. O resultado  foi o descontentamento popular  e a queda do governo local.

Voltando à situação brasileira, a diminuição da safra a ser colhida este ano não vai ser generalizada, sendo que os produtos mais atingidos pelas condições climáticas serão, como se viu, o milho e a soja. Outras lavouras, como o cacau, por exemplo, têm um cenário de preços melhores, com patamares de cotações acima de 4.500 dólares a tonelada, montante esse que só foi alcançado em 1977, ou seja, há 47 anos atrás. Não se sabe  se essa excepcional cotação será mantida por muito tempo, sendo prematuro cravar um prognóstico a respeito. A produção da Costa do Marfim, líder da produção mundial, caiu significativamente e a  de Gana, segundo produtor, teve também uma queda. Segundo Xico Graziano , a maior preocupação reside na redução dos volumes produzidos e nos preços do milho e da soja. Com isso, é de se prever uma queda na produtividade dessas culturas e de seus respectivos valores da produção, com o que se espera um aumento do endividamento rural. Na pecuária de corte, os preços da arroba do boi e do bezerro continuam fracos,  e na produção de leite, a situação dos produtores se afigura preocupante , com as importações de leite em pó a preços reduzidos. Há, contudo, um cenário mais animador para o café, para a produção de celulose, para o complexo canavieiro-açucareiro e de álcool, para os avicultores e suinocultores ( por conta da redução dos preços das rações), e também para o trigo, cevada e fruticultura irrigada, beneficiando, nesse último caso, os Estados da Bahia, Pernambuco e  Rio Grande do Norte, dentre outros , grandes produtores de frutas, em regime de irrigação.

Em face do cenário adverso para alguns dos segmentos referidos acima e da vigência das mudanças climáticas, o fortalecimento do seguro rural se afigura elemento essencial no desenho de nossa política agrícola, por conta de sua capacidade  de estabilizar a renda dos produtores rurais, permitindo aos mesmos o pagamento de suas dívidas decorrentes dos empréstimos bancários, e dos insumos e serviços adquiridos, estabilidade essa necessária para que  os setores que trabalham a montante e a jusante da nossa agropecuária operem sem sobressaltos. Os ministros da agricultura dos últimos governos  têm solicitado recursos da ordem de 3 bilhões de reais anuais  ou mais  para subvencionar os prêmios do seguro para os agropecuaristas, mas os sucessivos governos teimam em alocar no máximo 1 bilhão de reais nos últimos Planos-Safra. Com isso, a cobertura de nossa safra de grãos pelo seguro, que já foi de 15% da área cultivada, hoje alcança um percentual de algo como 8% de nossa área plantada com grãos, número este muito baixo quando comparado com os observados na Argentina e nos EUA. No caso norte-americano, mais de 90% da área cultivada com culturas temporárias é segurada. Essa é uma realidade que precisa mudar nos próximos Planos-Safra, até para poupar o Tesouro Nacional, que habitualmente aporta recursos de vulto em situações de  socorro aos  agropecuaristas em processos de renegociação e prorrogação de dívidas.

 

(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.  E-mail:

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