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ADARY OLIVEIRA – OS DILEMAS DA PRODUÇÃO AUTOMOBILÍSTICA

Redação - 29/01/2024 09:50 - Atualizado 29/01/2024

Qual a melhor alternativa, continuar produzindo automóvel movido a álcool ou montar novas fábricas de carro elétrico? Este não é o único dilema da indústria automobilística, mas é uma preocupação bastante atual e que certamente terá grande influência no futuro do transporte, individual e coletivo. O Brasil é o segundo maior produtor global de etanol, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e à frente da China. Usando cana-de-açúcar é o primeiro, e não produz mais porque destina parte da matéria prima à produção de açúcar. A produção de energia elétrica limpa avança a passos largos e a Bahia é considerado o maior gerador de eólica e o segundo maior de solar fotovoltaica. A produção de cana-de-açúcar é renovável a cada safra e tanto o vento quanto o sol têm fonte inesgotável. Quais então as vantagens e desvantagens dos dois modelos?

O automóvel movido a álcool já é um velho conhecido do brasileiro. Misturado à gasolina, anidro e comum, não é mistério para ninguém. O álcool pode ser produzido a partir de plantas como a cana-de-açúcar, o milho e a beterraba. Também poderá ser produzido em larga escala por hidrólise enzimática a partir de bagaço de cana e de muitos outros resíduos orgânicos, dependendo apenas de alguns pequenos ajustes na parte industrial. A produção da cana-de-açúcar com a técnica de irrigação por gotejamento subterrâneo é de domínio nosso e, seu uso, resultará em grande aumento da produtividade com baixo consumo de água. O etanol é renovável e tem um ciclo de carbono neutro, ou seja, o gás carbônico (CO2) que é liberado na queima do álcool é absorvido pelas plantas durante o seu crescimento. Além do mais, ele tem um poder calorífico maior do que a gasolina, o que significa que ele gera mais energia por litro consumido.

Entretanto, este combustível apresenta algumas desvantagens. Primeiro, ele é mais corrosivo do que a gasolina, o que pode danificar o motor e o sistema de injeção, problema que não é difícil de ser resolvido. Segundo, o carro roda menos quilômetros por litro do que com a gasolina tendo, portanto, menor autonomia. Terceiro, o setor é acusado de produzir desmatamento, mas o uso de terrenos planos das margens do Rio São Francisco, entre outros semelhantes, atenua tal problema.

O carro elétrico é movido por uma bateria recarregável. Ela armazena energia elétrica que é convertida em energia mecânica. Não havendo queima de combustível ele não emite gases poluentes para a atmosfera. Ele também é mais silencioso, mais econômico e mais eficiente do que o carro a combustão.

A grande desvantagem do carro elétrico é seu custo de aquisição, sendo mais alto que o automóvel a combustão. Por não ter sido testado em nossas estradas, poderá ter um custo de manutenção mais elevado. Uma outra desvantagem é que ainda não existem muitos pontos de recarga instalados, embora isso possa ser resolvido com o passar do tempo. Também de nada adianta se os pontos de descarga da bateria não forem abastecidos por energia elétrica gerada pela força dos ventos e dos raios do sol, ou seja, a energia tem que ser limpa. A bateria também é fabricada com metais pesados, como o lítio, e substâncias tóxicas, e não pode ser descartada em qualquer lugar.

Esses não são os únicos dilemas da indústria automobilística. O fato de ser uma indústria fortemente cartelizada, com imensas barreiras à entrada, que vão desde o alto valor dos investimentos e a sofisticada tecnologia, é natural que conviva com problemas que dificultem sua sobrevivência. O fechamento da unidade montadora da Ford, considerada há 10 anos uma das mais modernas do mundo, carregando consigo nada mais nada menos do que 28 sistemistas, é uma prova disso. Pode-se listar ainda o seguinte entre os dilemas dessa importante indústria: modernização dos processos produtivos com novas tecnologias e inovações; desenvolvimento de fornecedores locais de componentes do automóvel; adaptação contínua ao novo perfil do consumidor; melhoria do acesso ao crédito; enfrentamento da concorrência dos outros fabricantes; preparação para a transição, considerando a entrada no mercado de veículos elétricos.

O apoio do governo ao setor automobilístico é indispensável, como também a definição do caminho que permita a sua condução de forma sustentável e que possa maximizar os benefícios sociais dele resultante. O caminho para o desenvolvimento deve apontar sempre para a frente e não deve permitir acontecimentos que ponham em dúvida de que é certo o escolhido.

Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.) – [email protected]

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