A MALDIÇÃO DE INÍCIO DE SÉCULO – ARMANDO AVENA

A MALDIÇÃO DE INÍCIO DE SÉCULO - ARMANDO AVENA

Um amigo me diz estar preocupado com o cenário mundial. A decadência dos costumes, os assassinatos em escolas, a guerra no centro da Europa e em outras partes do mundo, as ameaças de guerra nuclear, tudo estaria demonstrando que a intolerância tomou conta do planeta e que as pessoas e os governos estão adotando posições radicais, sem chance de consenso ou entendimento.  É um sinal, conclui ele com certo misticismo, de que o mundo caminha para o seu ocaso.

Não posso conter um riso irônico e digo-lhe que isso é resultado da maldição de início de século.  Lembro-lhe que o início do século XIX presenciou a ascensão de Napoleão Bonaparte, que levou a guerra a todos os cantos da Europa com o objetivo de criar um império mundial, e que o século XX mal começou e o mundo viu-se envolvido na Grande Guerra, entre 1914 e 1918, e em 1917 a Revolução Russa  derrubou o Czar Nicolau II dando início a implantação do primeiro regime comunista no mundo. O Século XXI não foi diferente e começou com o atentado às Torres Gêmeas em Nova York e depois a invasão do  Iraque pelos Estado Unidos,  da Geórgia pela Rússia, passando pelas guerras civis na Líbia e Síria e agora pela Guerra da Ucrânia e as ameaças de guerra nuclear. Digo também que em todo início século ressurge um populismo de direita querendo restabelecer a tradição e os costumes na base das armas e da destruição das instituições e da justiça.

Meu amigo fica entusiasmado e não quer acreditar que é uma brincadeira, que não existe qualquer maldição de início de século, que no século XIX houve guerras de todos os tipos no começo, meio e fim; que em meados do século XX houve a segunda guerra mundial que terminou com a explosão de duas bombas atômicas e outras tantas guerras; e, mesmo sem guerra, o sistema comunista que ele odiava caiu.

Afeito a todo tipo de teoria da conspiração e incapaz de compreender minha boutade, meu amigo  acreditou imediatamente que a maldição do início de século havia caído sobre a humanidade. Postou sua crença nas redes sociais e logo formaram-se grupos garantindo que desde o século XVII a esquerda impõe uma maldição ao mundo, estimulando revoluções para implantar o comunismo.

Felizmente consegui convencê-lo de que a ambição humana e o desejo de poder e dinheiro provocaram guerras e desastres continuamente ao longo de todos as décadas de todos os séculos, mas que, os governos autoritários e os ditadores sempre foram contidos pelas instituições democráticas e pelo povo que, mais cedo ou mais tarde, se levanta e luta pela liberdade.

A essa altura o leitor já percebeu que a risível maldição de início de século foi uma ironia, uma espécie de metáfora para mostrar como ideias absurdas podem proliferar no mundo das redes sociais.  Na verdade, o homem vive continuamente a criar e a destruir, independente de vontade suprema ou maldição infalível, mas a humanidade permanece com o invencível desejo de liberdade.

Publicado no jornal A Tarde em 10/06/2022