Os autotestes de Covid-19 foram regulamentados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em janeiro deste ano. A proposta que, em tese, seria viável para ampliar o diagnóstico da doença e facilitar o controle da circulação do Sars-Cov-2 pode estar, na verdade, dificultando o monitoramento da pandemia no país dada a subnotificação de resultados positivos.
Apesar de a agência reguladora exigir que as empresas responsáveis pelos testes indiquem o Serviço Disque Saúde do Ministério da Saúde no produto, não há uma ferramenta que facilite a notificação de resultado positivo, destaca a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).
O vice-presidente da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e chefe da infectologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Botucatu (SP), Alexandre Naime Barbosa, explica que os autotestes são como exames de triagem, ou seja, sua realização não descarta a necessidade de procura de um serviço de saúde caso o resultado seja positivo, mesmo que a pessoa esteja assintomática.
O caminho para fazer a notificação parece fácil. O que dificulta o processo é a falta de orientação e campanhas de conscientização sobre a importância do procedimento, seja na embalagem dos testes, seja nos canais oficiais do Ministério da Saúde.
A Anvisa disponibilizou um material de 11 páginas com perguntas e respostas sobre os autotestes. Na questão sobre o que fazer caso o resultado seja positivo, a orientação é “se isolar imediatamente para evitar a contaminação de outras pessoas, usar máscara, avisar às pessoas que tiveram contato recente com você para também se testarem e seguir as recomendações do Guia de Vigilância Epidemiológica da Covid-19 do Ministério da Saúde”.
O problema, no entanto, é que o guia mencionado é um documento de 136 páginas com informações técnicas e de difícil compreensão para quem não atua no serviço de saúde, o que o torna inviável como material informativo para grande parte da população.
Além disso, há o risco de o teste não ser realizado corretamente, o que aumenta os riscos de falsos negativos, impedindo o isolamento adequado da pessoa infectada e a quebra da cadeia de transmissão do vírus Sars-Cov-2.
A subnotificação de casos positivos, mesmo quando não há sintomas graves e o quadro pode ser tratado em casa, dificulta o monitoramento da circulação do Sars-Cov-2 e deixa os serviços de saúde no escuro quanto à realidade da pandemia no país, segundo Ethel.
Fonte: r7
Foto: Breno Esaki/Agência Saúde