ÔMICRON JÁ É RESPONSÁVEL POR MAIS DE 90% DOS CASOS EM SALVADOR

ÔMICRON JÁ É RESPONSÁVEL POR MAIS DE 90% DOS CASOS EM SALVADOR

A variante Ômicron, da Covid-19, já é responsável por mais de 90% dos casos em Salvador e se tornou a cepa predominante na capital baiana neste início de ano. A informação foi confirmada ao grupo A TARDE pelo virologista Dr. Gúbio Soares, pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o primeiro cientista a detectar o vírus da Zyka no país. Segundo o pesquisador, o fato explica a escalada de contaminação na cidade.

“Nas primeiras semanas de janeiro, a Ômicron já tomou conta da cidade de Salvador. Posso afirmar que ela predomina em 99% dos casos”, diz o pesquisador, que ressalta que os dados recentes ainda não retratam a realidade do cenário epidemiológico. Com um equipamento de última geração importado da Inglaterra, chamado ‘MinION’, produzido pela universidade de Oxford para sequenciamento genético, o virologista detectou que 99% das amostras de testes positivos para o coronavírus analisadas, eram da Ômicron. As amostras foram colhidas desde o dia 11 de janeiro e a pesquisa foi conduzida junto a professora da Ufba, Silvia Sardi, e a a profª Marta Giovanetti, pesquisadora visitante da Fiocruz, no laboratório de Virologia ICS/UFBA.

Gubio explica que foram selecionadas aleatoriamente 35 amostras entre 180 colhidas por ele, de pessoas contaminadas de diferentes bairros e classes sociais. No total, foram utilizadas 32, e entre elas 31 foram identificadas como da nova cepa. A outra era da variante Delta. “Eu peguei 35 amostras aleatoriamente das 180 positivas colhidas na primeira semana de janeiro. Usamos uma tecnologia muito moderna e cara, só o aparelho custa mais de R$ 30 mil […] eu pensei que iria encontrar metade-metade, mas me surpreendi com mais de 90% da Ômicron. Por isso a dispersão tão grande e tantas pessoas positivadas. Salvador está em plana pandemia da Ômicron” alerta.

Os primeiros casos da Ômicron na Bahia foram identificados pelo Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia (Lacen-BA) no último dia 10 de janeiro, de amostras colhidas em dezembro. Até então, a nova variante representava 12,5% do total, sendo a Delta ainda a cepa predominante. Apesar do avanço da vacinação, a variante tem conseguido se espalhar e Salvador já presencia os níveis de contágio e de ocupação dos leitos em patamares semelhantes às piores fases da pandemia. A exceção, comprovada pelos números e reforçada pelo virologista, é que com a vacina, o índice de hospitalizações é muito menor e atinge, quase que exclusivamente os não vacinados e idosos que não tomaram a terceira dose.

A característica da variante de rápido espalhamento é preocupante e a eficácia da vacina se mostra nas taxas de ocupação dos leitos de UTI e de enfermaria pediátricos. A vacinação de crianças entre 5 e 11 anos só começou no último sábado na capital, após resistência do Governo Federal, que ignorou a própria decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão autorizou no dia 16 de dezembro a imunização desta faixa etária com a vacina da Pfizer, mas o governo Bolsonaro só incluiu o público no Programa Nacional de Imunização no dia 5 de janeiro.

Das amostras colhidas, todas eram de pessoas vacinadas, e 25% delas já imunizadas com a terceira dose. “Existe ainda esse agravante, que todas as pessoas positivas com a Ômicron, são todas vacinadas e 25% delas já com a terceira dose. Na sua grande maioria, as pessoas não ficam internadas, mas muitas crianças acabam hospitalizadas, justamente por não terem tomado ainda a vacina”, diz o virologista. Nos últimos 15 dias, Salvador viu saltar de 16 para 384 novos casos diários da doença, que representa um aumento de 2300%. Mesmo com a eficácia das vacinas na redução das internações hospitalares e mortes, o crescimento exponencial pode ser perigoso justamente pelo “grande volume”, conforme explica o secretário de Saúde do Município, Léo Prates.

“As preocupações são com os não vacinados e com o crescimento de pessoas sem terceira dose, e isso pode ser um problema grande. Sem a terceira dose, a pessoa não está imunizada, principalmente após seis de vacinado. Israel e China tiveram problema com isso. Segundo pelo próprio volume. Essa ômicron, apesar de ter, em tese, uma taxa de letalidade muito menor que as outras variantes, o volume que contagia é muito maior. 1% de 100 é 1, 1% de 1000 é 10%. Se o volume for excessivo, podemos ter um número bruto de óbitos maior do que já tivemos”, alerta.

Mesmo com sem a realização do Carnaval e a redução do limite de público em eventos para 3 mil pessoas determinado pelo governador Rui Costa (PT), Dr. Gubio Soares assegura que as medidas ainda não são suficientes para frear devidamente o avanço da variante. Ele condena a autorização para realização de para festas maiores e diz que o grande “problema” de Salvador é a permissividade com as atividades que resultam em aglomeração, determinante para o contágio da doença.

“O grande problema de Salvador é que está tudo liberado, pessoas aglomerando em barzinhos, festas, todos os shows possíveis. A Ômicron basta você encontrar uma pessoa e sentar em um barzinho, você pega, passa da uma pessoa para outra na maior rapidez do mundo”, relata o pesquisador. “Acho que o governador já devia estar tomando medidas mais duras para impedir essas aglomerações. Eu sou contra fechar o comércio, mas é preciso reduzir os shows. É festa para todo o lado. Uma pessoa contaminada passa para cinco. Em um evento com 3 mil pessoas, pelo menos 500 devem sair infectadas”, complementa.

Foto: divulgação