ECONOMISTA PERSIO ARIDA DEFENDE TETO DE GASTOS

ECONOMISTA PERSIO ARIDA DEFENDE TETO DE GASTOS

O papel fundamental do bom gestor “é planejar, antever. E formar um boa equipe, pois, sem ela, você não vai a lugar nenhum. Gente competente atrai gente competente”. Partindo desses pilares, o economista Persio Arida olha a cena econômica e política do Brasil e conclui: apesar de tantos erros e abusos do atual governo, “o Brasil não vai quebrar. Se formos capazes de eleger um bom presidente (em 2022), o País vai encontrar o seu caminho”. Nesta conversa com a série Cenários, Arida analisa a batalha em torno do teto de gastos e adverte: “Sem ele, o governo vai gastar muito mais e pior”. Em sua avaliação, “o governo atual cavou seu próprio buraco. Contratou um panorama recessivo para o ano que vem e vai colher o que plantou”. A seguir, trechos da entrevista.

Coisa difícil de ser respondida. Quanto à pandemia, o que vimos é a surpreendente volta de casos em países europeus e no Leste asiático. A Holanda acaba de anunciar um lockdown, a Áustria impondo o lockdown aos que não se vacinaram, parte disso devido ao movimento dos “antivax”. Felizmente, o Brasil ultrapassou esse momento. O segundo aspecto, especialmente lá fora, é o desabastecimento, com rupturas na cadeia produtiva. A gente vê isso no petróleo, com preços muito altos, em chips, os carros no Brasil, como se fosse um choque de oferta negativo. Economias muito aquecidas. O que ocorre nos EUA é revelador, lá já tem pressão por ajuste de salários. Nas eleições americanas, há pouco, vimos a perda de apoio dos democratas por causa da inflação. A combinação de choque negativo de oferta e choque positivo de demanda provoca essas pressões inflacionárias.

A avaliação de erros tem de ser sempre um ex-ante e um ex-post. O ex-post, olhando para trás, você diria que sim, exageraram na dose. Mas isso se corrige, ano que vem vai ter retração, o estímulo será menor. O Federal Reserve já começou a reduzir o ritmo de compra de títulos públicos do setor privado. Alguns economistas já alertavam, lá atrás, que a expansão válida para 2020 estaria excessiva para 2021. Aqui a história é um pouco diferente. Você tem uma história das políticas fiscais e outra da política monetária. Na fiscal, depois da grande expansão do déficit em 2020, passamos a uma expansão menor. O BC adotou postura agressiva, reduzindo os juros para perto de 2%. Mas, levando em conta as incertezas que havia quanto à pandemia e a velocidade da recuperação, para mim, está longe de ter sido errada a ex-ante, entende? Então, não acho que o BC tenha errado quando colocou a taxa de juros em 2%.

Vamos falar primeiro do Auxílio Emergencial e depois dos precatórios. Quando o teto de gastos foi criado, todo mundo sabia que, mais cedo ou mais tarde, haveria uma forte pressão para rompê-lo. A menos que se tomassem medidas para reduzir o volume de gastos obrigatórios da União. A União não fez nada, exceto congelar os salários dos funcionários públicos, nenhuma medida para criar espaços no teto de gastos. E aí aconteceu o óbvio, chegou-se a um limite desse teto.

A questão dos precatórios é de gerenciamento de riscos. Qualquer empresa, quando publica um balanço, é obrigada a lançar uma provisão para as ações que venha a enfrentar e perder na Justiça. O Ministério da Fazenda tem a Procuradoria, tem advogados que o defendem, tem a obrigação de antecipar essa provisão. Na última hora, é claro, você tem de pagar os precatórios, tem de dar auxílio aos mais pobres. Mas a obrigação do bom gestor é justamente planejar, antever. E tudo isso poderia ter sido feito. Aí vai ter gente achando que a culpa é do teto. Na verdade, é culpa da incúria dos administradores.

O que vejo é que as empresas do Brasil continuaram todas sendo geridas, assim como os governos estaduais e federal. Não vejo como a pandemia os tenha afetado. O fato é que contrair um volume de despesas obrigatórias para criar essa margem de gasto discricionário é algo que deveria ser preocupação de um governo desde o primeiro dia. Não se pode ficar de braços cruzados até o problema tomar a magnitude que tomou. A primeira coisa é prestar atenção ao problema a ser contido. Uma coisa é pagar os precatórios, o mínimo a ser pago, dar o Auxílio Brasil. Mas você não pode aprovar emendas que ampliam o teto deixando o gasto para ser decidido depois.

Foto: divulgação