TRABALHO EM EMPRESAS ESTRANGEIRAS: O QUE É PRECISO ?

TRABALHO EM EMPRESAS ESTRANGEIRAS: O QUE É PRECISO ?

Empresas de vários países têm se interessado na contratação de brasileiros para trabalhar de forma remota. Do outro lado, tem muito profissional por aqui atraído pelos bons salários em dólar ou euro e pela oportunidade de fazer parte de companhias internacionais trabalhando da sala de casa. A pandemia do coronavírus foi o ponto inicial para o aumento dessa procura e mostrou que é possível ter produtividade e resultados trabalhando 100% em home office.

“A pandemia acelerou o processo de gestão do trabalho remoto. As pessoas foram obrigadas a aprender a trabalhar assim, as empresas também. Novas ferramentas de tecnologia chegaram para ajudar nesse processo. E os resultados são excelentes”, afirma Cristiano Soares, country manager da Deel, startup americana especializada em contratações internacionais. A Deel representa bem o crescimento do setor. Presente em 150 países, chegou ao Brasil este ano e cresceu 20 vezes desde o início da pandemia.

Programa de contratação

Startup de recrutamento em tecnologia, a Revelo também tem números que retratam esse cenário. Em novembro de 2020, lançou um programa para conectar candidatos brasileiros com empresas estrangeiras. Desde então, teve crescimento de 400% nesse tipo de contratação. “O salário é um dos primeiros pontos a chamar atenção. A média de remuneração de profissionais de tecnologia no Brasil está por volta de R$ 8 mil para nível júnior. Já no exterior, o profissional começa ganhando, pelo menos, R$ 20 mil”, explica Lucas Mendes, cofundador da Revelo.

As empresas também se beneficiam dessa nova configuração de trabalho. Segundo Soares, a produtividade pode ser maior, há economia de custos de escritório e os gestores têm mais possibilidade de encontrar talentos de qualquer lugar do mundo, facilitando a contratação da pessoa certa para uma vaga.

Como conseguir uma vaga em uma empresa estrangeira?

Para Cristiano Soares, antes de procurar uma vaga é preciso saber se o profissional tem o perfil ideal para trabalhar 100% em home office, com gestores distantes fisicamente, em outro país. “Tem profissional que não está pronto pra trabalhar remotamente. Isso não é nenhum demérito, é só questão de maturidade profissional. E isso independe de experiência e de tempo de carreira. Depende mais do perfil e do comportamento”, explica.

Para quem tem esse perfil, algumas características e habilidades importantes para se destacar durante um processo seletivo são:

Inglês fluente: É essencial conseguir se comunicar e se expressar em inglês. Além da fluência na língua para exercer as atividades do trabalho em si, precisa conseguir interagir bem com colegas e chefia.

Autogerenciamento: Você consegue se autogerenciar? Organizar suas atividades sem depender de um chefe ao lado, falando o que e quando precisa executar uma tarefa? Isso é primordial e o recrutador vai gostar de saber.

Boa relação entre vida pessoal e vida profissional: É preciso saber organizar bem o tempo e saber distribuir as atividades do dia. A maioria das empresas estrangeiras não determina um horário fixo de trabalho, é o profissional quem vai precisar organizar o tempo. E isso inclui saber dividir bem a demanda do trabalho e da vida pessoal.

Flexibilidade: Quando se faz parte de uma empresa global, você pode ser chamado para uma reunião às 6 da manhã ou às 9 da noite, porque há pessoas trabalhando em diferentes fusos horários. Não existe a frase: “esse não é meu horário de trabalho”. Precisa estar disponível. Tem o outro lado: esse profissional geralmente consegue tirar folgas em horários que mais lhe interessam.

Conhecimento técnico adequado: Não adianta sair mandando currículo pra todas as oportunidades que aparecem. É preciso ser qualificado. “As empresas de fora que contratam profissionais brasileiros costumam usar as mesmas empresas de recrutamento. Se você se candidata para muitas vagas, mesmo sem ter perfil, as recrutadoras percebem que não há foco por parte do candidato. Precisa ser objetivo na hora da busca. Nem que demore mais tempo, é importante se candidatar para as vagas certas, que peçam o conhecimento técnico que você tem”, orienta Soares.

Onde estão as vagas?

A maior parte dessas vagas são para profissionais de tecnologia, mas também há procura por profissionais de customer success, análise de dados, design, marketing digital, vendas, atendimento e finanças. Na área de tecnologia da informação, a maioria das vagas são para desenvolvedores back-end, front-end e full-stack, e as linguagens mais demandadas são ruby, react, node, scala e python.

Desenvolvedores de aplicativos, engenheiros de dados e especialistas em Cloud AWS também são muito demandados. Ainda na área de tecnologia, as empresas buscam profissionais de gestão e liderança de equipe. Atualmente, na Revelo, 80% das contratações de brasileiros são realizadas por empresas da América Latina, América do Norte e Europa. Segundo Soares, da Deel, os países com mais oportunidades são Estados Unidos, Portugal e Alemanha.

O que pode atrapalhar a contratação?

Falar bem inglês é o ponto de partida para procurar uma vaga em uma empresa de outro país e é também um fator muito limitante. Dados da Revelo mostram que os níveis básico e intermediário empatam com 31% no perfil dos profissionais à disposição do mercado. Dentro da base da RH Tech, que tem 1,5 milhão de candidatos cadastrados, apenas 32,4% têm fluência na língua inglesa. Entre os candidatos que declaram dominar o inglês, 38,4% possuem nível intermediário de proficiência.

Além disso, a aptidão técnica também é primordial para quem quer investir em uma carreira internacional. E quando a área é tecnologia isso é ainda mais importante. “Os candidatos mais buscados por empresas internacionais são aqueles formados em alguma área da tecnologia da informação que tenha, pelo menos, três anos de experiência e bons cursos de formação no currículo. A tecnologia é uma área que está em constante atualização. A nossa dica é estudar ininterruptamente e atentar-se às novidades do setor”, indica Mendes.

Cuidados

Na hora de participar de um processo seletivo em uma empresa de outro país, é importante se informar muito bem sobre a vaga, pesquisar o site, o LinkedIn, descobrir quem são os donos, conversar com quem trabalha na empresa e entender exatamente como funciona a remuneração, benefícios e forma de trabalho. “Durante a entrevista, tem que tirar todas as dúvidas sobre a função, saber como o gestor trabalha. Tem que perguntar muito, não há problema nenhum nisso”, diz Soares.

Características únicas

Com os acordos estabelecidos, quem experimenta esse modelo de trabalho comemora. É o caso do gerente de engenharia Alexandre Rocco, que desde maio deste ano trabalha da sua casa, em São Paulo, para uma startup da área de saúde da Califórnia, nos Estados Unidos. Ele diz que a empresa o contratou exatamente porque estava em busca de brasileiros.

“Os fundadores já tiveram experiências no passado e gostaram das características dos profissionais brasileiros. Temos muita gente talentosa no Brasil e com características únicas que nos dão vantagens competitivas, como a criatividade para resolver problemas, por exemplo”, conta.

Para Rocco, além da questão salarial, o trabalho remoto possibilita uma flexibilidade maior de horários e adequação de rotinas: “Consigo organizar o meu dia e fazer o que preciso na minha vida pessoal e profissional com um bom equilíbrio. Quando eu trabalhava presencialmente, tinha um desperdício de tempo enorme de ao menos 2 horas do meu dia, passados no trânsito”.

Foto: divulgação