A FERRARI COM O FREIO DE MÃO PUXADO – POR ARMANDO AVENA

A FERRARI COM O FREIO DE MÃO PUXADO - POR ARMANDO AVENA

“O setor da Construção Civil é uma Ferrari com o freio de mão puxado”, afirmou esta semana o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil referindo-se aos fatores que estão impedindo o setor de bater um recorde de lançamentos e de geração de empregos. E a Bahia é um exemplo disso. O setor foi um dos primeiros a sair da crise, com vários lançamentos no segundo semestre de 2020 e houve um aumento de 40% na venda de imóveis em 2021.

Mas o crescimento arrefeceu e Salvador registrou uma redução de 54% no número de lançamentos no 1º semestre de 2021 em comparação com o semestre anterior. Entre os empresários do setor, a intenção de investir permanece e a demanda continua aquecida, mas uma série de fatores está freando a Ferrari dos investimentos. Segundo Cláudio Cunha, presidente da Ademi – Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia, a burocracia é um desses fatores, pois o prazo para conseguir um alvará em Salvador é de sete meses a um ano e outro tanto para o registro da incorporação nos cartórios.

Assim, os lançamentos de 2021 foram todos aprovados em 2020 e existem neste momento 12 mil unidades em processo de licenciamento, o que significa que novos lançamentos podem acontecer no 2º semestre. Cunha diz, no entanto, que o maior problema do setor é a alta exponencial no preço dos insumos, especialmente cimento e aço, afetando diretamente as planilhas de custo já que a fundação e a estrutura representam cerca de 55% dos projetos.

E esses aumentos terão de ser repassados aos preços dos novos imóveis lançados, o que impacta a demanda. Como se não bastasse, o governo federal cortou os recursos do FGTS e do orçamento destinados aos financiamentos dos imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida, responsável por parte expressiva dos lançamentos de imóveis na Bahia. Quanto ao aumento da taxa de juros, o presidente da Ademi diz que a Selic ainda está na chamada zona neutra, de até 7%, mas se subir acima disso o crédito ficará mais caro.

Cunha acredita no crescimento do setor, diz que a pandemia estimulou a compra de imóveis e que existe uma demanda reprimida. Afirma que o estoque de imóveis prontos em Salvador é de apenas 2,6 mil unidades, lembrando que em 2014 esse número chegava a 18 mil. Além disso, ressalta que os empreendimentos em análise serão lançados no 2º semestre e que existem novos nichos de mercado abertos pelo PDDU que estão atraindo incorporadores e consumidores, como a Barra onde ninguém construía e hoje tem mais de uma dezena de lançamentos. E bairros como Itapuã, Imbuí, Stela Maris, Horto Florestal, Graça e Vitória continuam atraindo lançamentos. Em resumo: a Ferrari ainda pode voltar a correr.

                             OS GARGALOS DA CONSTRUÇÃO

O presidente do Sinduscon – Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia, Carlos Maden, também se mostra preocupado com os cortes do governo federal no financiamento do programa Minha Casa Minha Vida e diz que no orçamento de 2021 a previsão era de R$ 1,5 bilhão para a faixa 1 e o governo reduziu para R$ 400 milhões, que já foram usados. “Se não houver recomposição o programa vai parar”, diz ele. E reclama do governo federal, citando o aumento da inflação, a reforma tributária, que pode aumentar impostos, e o desemprego em alta.  Maden diz que o mercado não vai assimilar o repasse do aumento no custo dos insumos e com a inflação em alta os lançamentos vão se reduzir.

                               PENDÊNCIAS DA BAHIA

A Bahia tem três pendências na área de infraestrutura que precisam ser resolvidas. A mais grave, que esta coluna foi a primeira a anotar, é Ferrovia Centro-Atlântica, uma concessão federal para a VLI Logística, que nunca foi prioridade e, semiabandonada, permanece sem investimentos de porte. Outra pendência é a Via Bahia, que administra a BR 324, Salvador-Feira, e não cumpre os investimentos programados e cuja promessa do governo federal de cancelar a concessão nunca se concretiza. A terceira é o chamado porto da Ford, uma área portuária equipada que foi concedida à Ford em regime de comodato por um século, mas está sendo devolvida e o governo do Estado precisa dizer o que vai fazer com ela.

Publicado no jornal A Tarde em 29/07/2021