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RECLAMAÇÕES CONTRA FACULDADES PRIVADAS CRESCEM 1.300% NO MINISTÉRIO PÚBLICO

Redação - 29/07/2021 08:50 - Atualizado 29/07/2021

Foram nove semestres do curso de enfermagem, noites sem dormir, semanas de provas, para chegar na reta final sem saber onde está a linha de chegada. A estudante Ana**, 26 anos, da Universidade Católica de Salvador (Ucsal), falta só quatro matérias para concluir o curso, contudo, não sabe quando vai se formar. Isso porque, com a demissão em massa dos professores nas faculdades privadas de Salvador, aliada à redução de salários e carga horária, há uma falta de oferta de disciplinas para os alunos, que não têm outra opção senão adiar o sonho do diploma.

Além de matérias não ofertada, há choque de horário, e antigos estudantes da Faculdade São Salvador que nem o certificado de conclusão do curso conseguem pegar, pois não há comunicação com a faculdade desde 2019. Na Unisba, quem estava na boca da formatura, compartilha da mesma frustação, após a universidade suspender os cursos de graduação. Alunos também relatam cobranças indevidas da Uniruy, Ucsal e Unifacs e perda de descontos e bolsas do Fies e Prouni.

Segundo o Ministério Público da Bahia (MP-BA), 469 denúncias foram registradas, somente em Salvador, contra estabelecimentos privados de ensino superior, entre 2019 e 2021 – 27 em 2019; 382 em 2020 e 60 em 2021. De 2019 para 2020, ano em que começou a pandemia da covid-19, houve um aumento de mais de 1.300%. Já de 2020 para 2021, houve queda de 536%. Contudo, o número ainda é mais que o dobro que em 2019, quando o ensino remoto não tinha sido implantado.

Do total de procedimentos, 212 dos 469 têm relação a pandemia da covid-19. Segundo o MP-BA, que recebe as denúncias por meio do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Consumidor (Ceacon), as principais queixas são: não redução da mensalidade durante o período pandêmico, questionamentos sobre implantação de aulas EAD, cobranças abusivas, interrupção de disciplinas, entre outras. O MP-BA não tinha o total de registros na Bahia.

Em série de três reportagens especiais iniciada na terça-feira (27) – leia a primeira e a segunda aqui -, o Correio mostra a crise, agravada pela pandemia, e suas consequências para os professores e as universidades particulares de Salvador. Na última matéria da série, falamos do efeito cascata repassado aos alunos.

Formatura adiada

Para Ana**, o que mais incomoda é a falta de oferta de matérias. “O estágio, que era para fazer em fevereiro, só vou conseguir em agosto. E, o do próximo semestre, só em dezembro ou fevereiro do ano que vem. Era para me formar no final de 2020, mas, como a situação financeira da faculdade não está boa, tenho medo que ela vá falir e a gente não consiga formar”, desabafa a aluna da Ucsal.

Nem professor para estágio a instituição tem no quadro. “O mínimo de matéria que temos que pegar são 6, mas só estão ofertando duas ou três, porque não tem professor para dar aula de estágio. O pior é que a gente não tem resposta e eles não são claros. Todo dia é uma dor de cabeça diferente”, conta.

O contato com a faculdade também é complicado. Ainda mais com o campus da Federação desativado, por conta da demissão de metade do corpo administrativo. Agora, todos os alunos devem se dirigir ao campus de Pituaçu para esclarecer dúvidas e resolver problemas, ou pelo telefone. “A gente não consegue se comunicar com a faculdade, seja por questão financeira ou acadêmica, é horrível. Quando temos resposta, é vaga e demora séculos”, critica a aluna.

Na UniRuy e Área 1, que pertencem ao mesmo grupo, o YDUQS, a situação é parecida. Uma estudante de arquitetura da Uniruy, que não quis se identificar, do nono semestre, pretendia se formar neste ano. Porém, das cinco matérias que ela precisa cursar para concluir o curso, só três foram ofertadas – duas no mesmo horário e outra pela manhã, sendo que o curso dela é noturno.

“A faculdade está o caos. Desde que foi comprada pela Estácio, só está em decadência. Optei pelo curso noturno para poder trabalhar pela manhã, só que eles não estão respeitando mais isso. Pretendo me formar esse ano, mas está difícil”, desabafa. Até crise de ansiedade a estudante teve. “Esse ano, minha ansiedade foi se potencializando e, quando soube da grade de disciplinas, tive uma crise de ansiedade. Preciso me formar semestre que vem. Falei com a coordenadora, mas até agora não tive resposta”, desabafa.

Assim como ela, outra aluna, também da Uniruy e que pediu anonimato, estava na expectativa de se formar até o fim de 2021, não sabe mais quando acontecerá. “Preciso de seis para concluir o curso e só disponibilizaram duas matérias”, conta. Além da pouca quantidade de disciplinas, a carga horária delas foi diminuída – sem haver alteração na mensalidade. “A gente paga pela modalidade presencial, só que, além de ser online, não temos aula toda semana. Demitiram a maioria dos professores e pegam alguns para dar uma aula por mês e chamam de Estudo Dirigido. Antigamente, eram três horas de aula por semana, hoje, são 50 minutos, e ninguém aprende com isso”, conta a aluna.

Essa modalidade, de Estudo Dirigido (ED), implica em diminuição da carga horária dos professores de 60h semestrais para 20h semestrais – as turmas têm 20h presenciais e o resto o aluno estuda só. Antes, o ED era fornecido apenas para formandos, para fazer uma última disciplina que estivesse devendo, mas, agora, todos os semestres, de todos os cursos, têm pelo menos uma turma em ED, segundo professores e alunos.

Na Área 1, a formatura de João**, aluno de engenharia elétrica, está incerta. “A faculdade demitiu uma série de professores e isso está prejudicando aos alunos. Geralmente, tem acontecido a partir do 7 semestre, obrigando os alunos a ficarem mais um semestre e ter mais custo. Ainda tenho 15 matérias, só que a faculdade só liberou quatro. A previsão de formação era para 2022.2, e agora vai para 2023”, conta João*. Para formar no prazo certo, ele teria de cursar 6 matérias por semestre.

Uma colega dele, concluinte, que precisa de 5 matérias para se formar, só pôde pegar uma disciplina pela falta de opções. Isso tem adiado os estudantes no ingresso ao mercado de trabalho. “O aluno que tem uma oportunidade de trabalho ou de negócio que dependa da formação, sai prejudicado. Estou como autônomo, no momento, em busca de voltar ao mercado”, explica João, bolsista do Prouni e técnico de eletrotécnica.

Na Unifacs, a estudante de direito Jéssica Garcia, em teoria, está no quinto semestre. Na prática, todas as matérias oferecidas pela faculdade são do sexto. “Eles não estão mais ofertando todas as disciplinas, estou sendo obrigada a me matricular no sexto semestre, para só depois fazer o quinto, sendo que deveria ter pré-requisito, porque tem matéria que é indispensável para as outras”, reclama a aluna.

Foto: divulgação

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