ARMANDO AVENA – HEIDEGGER, A PANDEMIA E O TEMPO

ARMANDO AVENA - HEIDEGGER, A PANDEMIA E O TEMPO

Apesar da pandemia, o tempo passa velozmente. A lentidão é quem deveria reinar, já que estamos em casa  e, no entanto, os dias parecem passar mais depressa. O ano mal começou e já estamos no meio do ano. A princípio ponho a culpa na nova rotina que a pandemia impôs, repleta de reuniões remotas, de “lives” e das horas ocupadas com a preservação do corpo e dos afazeres da casa.

Lembrei-me do filósofo alemão Martin Heidegger que afirmou ser o cotidiano “a ruína” do ser humano,  pois o desviava do seu projeto essencial, alienando-o do objetivo de tornar-se si mesmo. Heidegger dizia que o homem é jogado no mundo sem ter sido consultado e por isso precisa buscar a transcendência, mas que as preocupações cotidianas, que tomam cada vez mais tempo, criavam uma existência inautêntica, alienando-o do seu objetivo e sacrificando seu eu individual.

Ora, o cotidiano é quase sempre uma alienação, mas no século XXI a rotina se ampliou através de celulares  e computadores que nos plugaram a internet de modo que há sempre uma texto para ler, um vídeo para ver, mensagens  nos grupos do WhatsApp, uma inadiável postagem a ser colocada no Face ou no Insta, um e-mail para responder e uma série para assistir.  Heidegger, que jamais viu um celular, diria que essa nova rotina estaria distraindo ainda mais o eu individual, confundindo-o com a massa coletiva. “O eu seria sacrificado ao persistente e opressivo eles”.  Parece que Heidegger já sabia, antes do advento das redes sociais, que o ser humano estava se tornando “promiscuamente público” e sua vida estava sendo reduzida “à vida com os outros e para os outros”, longe do objetivo maior de tornar-se si mesmo.

Antes que alguém o faça, é preciso dizer que Heidegger, que teve como discípula e amante Hannah Arendt, é abominado em alguns círculos intelectuais por ter sido reitor da Universidade de Freiburg em 1933, ano em que Hitler foi eleito chanceler, mesmo tendo se demitido 10 meses depois por discordar do regime, mas esse equívoco é bobagem  frente a “Ser e Tempo”, o poderoso livro que ele escreveu.

Está crônica, no entanto, quer mesmo é reclamar da celeridade do tempo.  E o fato é que a rotina da casa, da televisão e das redes sociais tornou-se o nosso dia a dia na pandemia e há quem diga  que é ela que faz o tempo voar. Isso porque como os dias são sempre iguais, eles não ficam marcados na memória, deixando a impressão de que tudo está passando muito rápido. Já não há mais aquela festa maravilhosa, as férias inesquecíveis, o show imperdível, assim tudo parece muito igual e passa muito rápido.  Não sei se é assim, temo que a verdade esteja mais próxima de Heidegger, afinal, quem passa é o homem, os dias  e os anos são meras formas de contar o tempo. O ser é o tempo.

Publicado no jornal A Tarde em 11/06/2021