As mais de 400 mil vidas perdidas para a Covid-19 são um marco da tragédia brasileira na pandemia, mas não significam que o pior já tenha passado, alerta o infectologista Julio Croda, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-integrante da equipe de Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde, da qual saiu em março de 2020. Ele reforça a importância de a população respeitar regras básicas como o uso de máscara e o distanciamento social.
Quando chegamos a 100 mil mortos, em agosto de 2020, as perspectivas não pareciam tão ruins. O que mudou?
Foi o que mudou e o que não mudou. Temos novas variantes, em especial a P1. Ela é mais transmissível e aumenta a chance de reinfecção. E agora há certeza de que não existe imunidade coletiva natural, ela será proporcionada pelas vacinas. O que não mudou foi a falta de distanciamento social, de testes, de uso de máscaras.
Por que as taxas de novos casos e mortes chegou a cair por alguns meses no segundo semestre de 2020?
Foi o ciclo natural do vírus, que vem em ondas. Desceu e depois subiu, e subiu muito, porque encontrou condições favoráveis. E essas condições persistem, com o agravante das novas variantes.
E qual é o cenário para os próximos meses?
A marca de 400 mil mortes é dramática, mas não é o fim da tragédia. O número continuará a subir. Não temos vacinas suficientes. E teremos ainda mais liberação das atividades econômicas. Isso vai aumentar a transmissão.
O que vai acontecer se a vacinação não acelerar?
É muito provável que tenhamos outra explosão de casos no fim de junho.
Podemos esperar momentos tão ruins quanto o atual?
Sim. Talvez piores. Mantido esse ritmo, teremos 500 mil mortos no fim de junho. E sem vacinas, aumenta a chance de o vírus adquirir outras mutações perigosas.
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