JOSÉ MACIEL- INTENSIFICAÇÃO E SUSTENTABILIDADE DA PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA

JOSÉ MACIEL- INTENSIFICAÇÃO E SUSTENTABILIDADE DA PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA
Nas últimas colunas , abordamos alguns produtos promissores  para a obtenção de Indicação Geográfica na Bahia, a exemplo da carne de bode, doces, geleias e derivados de umbu e banana, esta associada ao município de Bom Jesus da Lapa. Oportunamente, voltaremos ao tema com a inclusão de novas pautas consideradas  igualmente promissoras , utilizando inclusive informações atualizadas fornecidas pelo Sebrae, entidade que vem assessorando os produtores baianos nessa matéria.
No artigo de hoje, trataremos sucintamente  da intensificação  dos sistemas de produção agropecuária no Brasil e da necessidade de adoção sistemática de padrões de produção sustentáveis, requisitos estes crescentemente exigidos pelos mercados e pelas legislações ambientais e sociais.
Todos sabem que há pouco espaço para o crescimento agrícola  horizontal (baseado na incorporação de novas áreas) no mundo, e no Brasil não é diferente, a despeito de dispormos ainda de enormes áreas de terras aptas para a agropecuária, e que seriam legalmente passíveis de desmatamento. Em outras palavras, há fortes razões e pressões para que o aumento da produção agropecuária para satisfazer as crescentes demandas mundiais ocorra por meio da intensificação  dos sistemas de produção  e da elevação da produtividade, e não por acréscimos  de área cultivada de lavouras e pastagens.
Pelo lado da oferta e da produção,  sabe-se também que o aumento dos preços das terras , a escassez de mão-de-obra, as exigências dos mercados e a necessidade legal  de preservação de de extensas áreas de vegetação nativa , além da conservação de recursos hídricos e de solos, e de compromissos assumidos pelo Brasil em fóruns internacionais,  têm imposto limites concretos à expansão das fronteiras agrícolas via desmatamentos. Portanto, é e será cada vez mais necessário produzir mais e com mais qualidade e sanidade em cada hectare de terra.
Segundo estudos da EMBRAPA, a modernização recente da agropecuária brasileira  já é uma experiência bem sucedida de intensificação da produção agropecuária. Atualmente, o Brasil produz em cada hectare 3 vezes mais grãos que em meados dos anos 1970. Em 1975, o Rio Grande do Sul produzia cerca de 1.090 kg de soja por hectare , menos de 20 sacas por hectare, portanto; hoje o Estado e o país colhem uma média de 3.600 kg, ou 60 sacas por hectare. Nas últimas safras, o Oeste baiano ostentou índices de produtividade em torno de 60 sacas por hectare ( o mínimo registrado   alcançou a marca de 56 sacas por Ha ), e as previsões da AIBA para a temporada 2020-2021 são de  66 sacas por hectare.
Essa modernização e incorporação crescente de novas tecnologias tem ajudado o Brasil  a  ter 66% de suas terras com vegetação nativa. Poupamos muita terra de ser desmatada nesse processo. As áreas com lavouras, pastagens e florestas plantadas somam 30% das terras ocupadas no país, segundo dados da EMBRAPA. Tudo isso permite afirmar que o Brasil é dos poucos países que concilia a expansão  da produção alimentar , de fibras e biocombustíveis com a preservação de extensas áreas de vegetação nativa, cuja proteção está prevista em nosso Código Florestal, que estipula, dentre outras coisas, a imposição de elevados coeficientes de Reserva Legal nos diversos biomas. Só na AMAZÔNIA, cada agropecuarista  tem de respeitar uma  reserva legal de 80% das áreas das propriedades.
É mister admitir que esta tendência preservacionista se consolida também por imperativos ditados pelas crescentes preocupações ambientais das sociedades no mundo contemporâneo, que estão demandando crescentemente sistemas de produção a um só tempo mais produtivos, mais sustentáveis , e com menor emissão de  gases de efeito estufa, tudo isso em sintonia com metas estabelecidas em acordos internacionais recentes, dos quais o nosso país  é signatário. Todo se lembram que, para o horizonte de 2030, o Brasil se comprometeu com uma meta de redução de 80% das taxas de desmatamento na Amazônia e 40% no Cerrado, além de 12 milhões de hectares reflorestados  e  45% de energia limpa em nossa matriz energética.
Portanto, eficiência no uso dos recursos, inclusive solos e água, e busca incessante de aumentos de produtividade das lavouras, pastagens e criações,  e ocupação e recuperação de terras degradadas  serão cruciais daqui por diante na expansão de nosso agronegócio. E tudo isso impõe novos desafios ao nosso sistema de pesquisa agropecuária.
As estimativas da EMBRAPA dão conta da existência de um estoque entre 60 e 100 milhões de hectares de terras degradadas, que poderão ser inseridas no processo de produção. Por outro lado, o Brasil conta com um vasto universo de tecnologias disponíveis capazes de viabilizar expressivos aumentos  de produção sustentável  e produtividade. Como exemplo, podemos citar as possibilidades de integração lavoura-pecuária-floresta , os sistemas agroflorestais, o sistema de plantio direto (fundamental para a ampliação da área de segunda safra e de sucessão e rotação de cultuaras, por abreviar o tempo utilizado no preparo do solo), agricultura orgânica, controle biológico de pragas e doenças, extrativismo sustentável, agricultura de precisão, fixação biológica de nitrogênio (economizando compras e gastos com fertilizantes nitrogenados) e outros.
Além das perspectivas do melhoramento genético de lavouras e criações, e da agricultura irrigada, alguns pesquisadores  da EMBRAPA sustentam que temos alguns caminhos possíveis para alcançar novos patamares na intensificação de nossos sistemas de produção . Uma das possibilidades reside no uso de tecnologias já disponíveis para uso em áreas em que a produtividade atual ainda está   abaixo da produtividade potencial. Judson Valentim, da EMBRAPA ACRE,  cita o milho, por exemplo, com produtividade média atual de 5,4 toneladas por hectare. Com  o uso  de tecnologias já  disponibilizadas, pode-se evoluir para níveis entre 10 e 12 toneladas por hectare. Outro caminho consiste em produzir safras múltiplas ao longo do ano.  Novamente, ele recorre ao caso do milho, no qual, a segunda safra, chamada safrinha,  já representa 70% da safra total anual. Então, numa mesma área , se pode duplicar ou mais que duplicar a produtividade ao longo do ano com a adoção das safras múltiplas . O Brasil é um dos poucos países que pode adotar tal sistema em condições naturais, sem irrigação. Uma outra vertente é constituída pela emergência de novas tecnologias,  muitas das quais ainda não se pode antecipar. É o que ele chama de tecnologias disruptivas. Como exemplo, ele cita uma uma nova descoberta da EMBRAPA, com a inoculação  de sementes de forrageiras com inoculantes  contendo bactérias fixadoras de nitrogênio, permitindo aumentos de 15% na produtividade de pastagens  para a nossa pecuária.  Essa fixação biológica de nitrogênio já é usada na soja há décadas.
Do exposto, é possível depreender que temos amplas possibilidades de intensificação sustentável de nossos sistemas de produção agropecuária sem recorrer a novos desmatamentos.
(1) Consultor Legislativo e doutor em Economia a pela USP.  E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com