JOSÉ MACIEL- AGREGAÇÃO DE VALOR NO AGRONEGÓCIO

JOSÉ MACIEL- AGREGAÇÃO DE VALOR NO AGRONEGÓCIO
No último artigo, a partir do estudo da EMBRAPA , intitulado ” 2030: o futuro da agricultura brasileira”, abordamos os principais   movimentos migratórios no Brasil, com especial destaque para a chamada “caminhada dos sulistas”, considerada a mais impactante para a produção de grãos no Brasil, e que colocou  o Oeste baiano e o MATOPIBA definitivamente no mapa da produção de grãos mais dinâmica do país.
Este mesmo estudo coloca a agregação de valor no agronegócio brasileiro como uma tendência de grande importância, que merece, a nosso juízo, ser priorizada entre os analistas e nas políticas públicas .
Inicialmente, o aludido trabalho reconhece que a valorização de um produto a partir de uma avaliação de qualidade e preço é um enfoque demasiado simplista. Características especiais, serviços pós-venda, experiências com marcas exitosas, dentre outros fatores, também contam e agregam valor. Por outro lado, em economias maduras, como nos EUA, Itália e França, os consumidores   valorizam bastante as compras da produção local, e isso beneficia em grau importante os pequenos produtores.
Outra forma de agregar valor aos produtos do agronegócio deriva da possibilidade de sua aplicação em diferentes setores industriais, como o químico e o setor farmacêutico. Ademais dos aspectos nutricionais, o açaí, por exemplo, é empregado para a produção de antocianinas, elementos com importantes propriedades terapêuticas, e  também usados como insumos relevantes em outras indústrias, como vinhos e corantes naturais. A  bioeconomia , que possibilita e possibilitará a obtenção de uma infinidade de produtos a partir de recursos biológico-renováveis , já  é realidade. No particular, aliás, o Brasil, com 20 % da biodiversidade do planeta, pode ter um grande futuro no contexto desses novos paradigmas industriais.
Uma alternativa adicional de  geração de valor no agronegócio consiste no uso de processos e obtenção de produtos valorizados crescentemente pelos consumidores, a exemplo de alimentos saudáveis e funcionais. É preciso considerar aqui que o consumidor brasileiro e de outros países vem valorizando progressivamente  ou dando preferência a produtos cuja obtenção se  dá respeitando atributos de qualidade, sanidade, e os cânones das legislações ambiental e social. Produtos orgânicos, gourmet e premium,  isentos de alergênicos , com teores reduzidos de sal, açúcar e gorduras Trans, sem lactose, com rastreabilidade, com rotulagem informativa e outros atributos vêm ganhando a preferência dos consumidores. Tudo isso cria oportunidades de agregação de  valor no agronegócio brasileiro e mundial.
Finalmente, sem querer esgotar o universo de possibilidades, a agregação de valor pela via da “origem” ou das Indicações Geográficas é outra forma promissora de agregação de valor no agronegócio brasileiro. Os países europeus têm centenas de Indicações Geográficas registradas.  A França tem mais de 700.  O Brasil tem pouco mais de 60 IGs, mas temos imensas possibilidades de crescermos nesse campo, com todas as repercussões positivas  a serem geradas em termos de upgrade comercial e preços dos produtos agraciados, e de aumento   do potencial turístico das regiões contempladas.  A IG, com o se sabe, relaciona as  especificidades, o diferencial  e as singularidades de certos produtos e serviços à sua origem ou lugar onde a produção se tornou conhecida. Temos aqui  no Brasil as modalidades Indicação de Procedência e Denominação de Origem. Em outra oportunidade, iremos detalhar esses conceitos. Por ora, é importante ressaltar que e a Bahia tem 4 importantes IGs aprovadas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI): as mangas e uvas do vale do São Francisco,  a cachaça de Abaíra, o cacau dos Sul da Bahia , e, mais recentemente,  o café verde do Oeste baiano.
Entretanto, a despeito do mérito indiscutível desses produtos citados acima, outros têm potencial para pleitear e figurar nesse seleto time. O primeiro que salta aos olhos é o café de Piatã, e também o de Mucugê e outros municípios da Chapada Diamantina.  Todos sabem que este café é conhecido e apreciado mundialmente,  desfrutando de indiscutível reputação no universo de cafés gourmet e premium no plano internacional, inclusive no Vaticano, que tem importado frequentemente o produto baiano. Pelo  que se sabe, a estratégia do SEBRAE e dos cafeicultores locais é preparar os produtores para dois pleitos, ou 2 IGs: uma contemplando a Chapada Diamantina como um todo, e outra exclusiva para Piatã, que na visão dos  Consultores do SEBRAE, é  um verdadeiro “Terroir”  do setor de cafés especiais. Colocar Piatã e a Chapada no mapa das IGs nacionais é tarefa urgente. Mas, existem outras  possibilidades com bom potencial para integrar essa lista baiana, segundo técnicos do SEBRAE. Entre elas, podem ser citadas a carne de bode e de cabrito de  Uauá,  a carne de sol de Itororó, artesanato de sisal de Valente, doces e geléias  de umbu  do serão do São Francisco, o café do Planalto de Conquista, o azeite de dendê de  Valença, o guaraná de Taperoá, a farinha de mandioca de Nazaré das Farinhas, a cerâmica artesanal de Maragogipinho, as rochas de Ourolândia, a banana de Bom Jesus da Lapa, o biscoito de Vitória da Conquista e outros. Nesse sentido, cabe continuar mobilizando as comunidades ligadas a esses produtos e o SEBRAE (que tem sido um grande impulsionador desses pleitos de IGs) para viabilizar  a inclusão desses produtos no mapa das IGs brasileiras.
(1) Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.   E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com