sábado, 05 de abril de 2025
Euro 6.40205 Dólar 5.8539

NO RITMO ATUAL, BRASIL SÓ CONSEGUIRÁ VACINAR 70% DA POPULAÇÃO EM 2024

Redação - 07/02/2021 08:04

Se o Brasil mantiver o atual ritmo de vacinação, levará três anos para imunizar 70% da população contra Covid-19. A perspectiva de atingir só em 2024 a cobertura que permite a volta ao “velho normal” é desanimadora, mas há espaço para melhorar o desempenho, dizem cientistas. Além de, evidentemente, avançar na aquisição de vacinas, o Programa Nacional de Imunização (PNI) precisa, pontuam, azeitar sua logística, prejudicada pela escassez dos imunizantes— quanto menos vacinas, mais complexo é organizar a fila de vacinação e suas prioridades.

Até agora, o Brasil vacinou apenas 1,5% da população. Com problemas similares, outros latino-americanos avançaram ainda menos, casos de Argentina (0,8%), México (0,5%) e Chile (0,4%). Por terem se movimentado antes e comprado mais vacinas, nações ricas como Estados Unidos, Reino Unido, Israel e Emirados Árabes Unidos estão no caminho para chegar aos mágicos 70% ainda em 2021, segundo dados do projeto Our World In Data, da Universidade de Oxford (veja quadro ao lado).

Um cenário em que nações ricas controlam a Covid-19 dois ou três anos antes das pobres preocupa organismos multilaterais como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso levaria ao isolamento dos países em desenvolvimento por restrições de viagem e comércio, potencializando a desigualdade, além do risco de reintrodução do vírus nas regiões que conseguirem debelar surtos. Apesar de o principal gargalo do plano de vacinação do Brasil ser a falta de vacina disponível, os problemas logísticos e de burocracia também têm um peso razoável. Tanto que, das 10 milhões de doses prontas para distribuição pelo SUS, só 3 milhões foram aplicadas até a última sexta-feira.

Se contados os 20 dias passados desde o início da campanha de vacinação, o país está vacinando cerca de 165 mil pessoas por dia, ritmo bem aquém da capacidade, diz José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa-SP: — O PNI pode vacinar, tranquilamente, 2 milhões de pessoas por dia. E esta é uma estimativa conservadora, levando em conta que só exista um vacinador em cada uma das 40 mil salas de vacinação do país — diz o médico sanitarista, que defende a criação de equipes para auxiliar os cadastros e agilizar o processo.

Para Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a dificuldade de hierarquizar os grupos a serem vacinados — e evitar fura-filas — torna o processo do cadastro mais lento. — Como não houve definição clara, ficou a critério dos gestores locais — conta Cunha, médico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. — Na capital gaúcha foi instituída uma lista, que levou um certo tempo para sair, indicando “prioridades dentro da prioridade”. Nós, profissionais de saúde, fomos classificados em 12 subgrupos.

Outro motivo para a demora é que alguns estados e municípios estão reservando a segunda dose da vacina para as pessoas que já tomaram a primeira tenham o seu reforço garantido. Há, então, efeito perverso:a escassez agrava a lentidão. — Como não temos o número de doses correto e elas chegam fracionadas, de pouco em pouco, é preciso controlar — afirma Tânia Chaves, vacinóloga da Universidade Federal do Pará. — Não dá para sair vacinando todo mundo sem garantir a imunização completa, com duas doses.

Os cientistas ouvidos pela reportagem não quiseram arriscar quando o país pode atingir os 70% da população vacinada, com ou sem uma otimização do PNI. Um relatório da consultoria Economist Intelligence Unit buscou dar essa resposta mapeando compras de vacina mundo afora e analisando a infraestrutura de diversos países. A empresa inclui o Brasil dentro de um grupo de nações de renda média que conseguiriam vacinar o público não prioritário a partir de setembro deste ano. Isso permitiria ao país ter uma “volta ao normal” no meio de 2022 “caso sejam implementadas restrições”. Ou seja, o cenário otimista requer que as medidas de contenção da pandemia não sejam abandonadas até lá.

Foto: divulgação

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.