A DISPUTA PELA PRESIDÊNCIA DA CÂMARA E A ESTRATÉGIA DE ACM NETO

A DISPUTA PELA PRESIDÊNCIA DA CÂMARA E A ESTRATÉGIA DE ACM NETO

O ex-prefeito ACM Neto foi figura central na disputa pelas presidências da Câmara e do Senado e, se por um lado consolidou seu prestígio no partido, tornando-se uma liderança nacional, por outro foi alvo de fortes críticas, especialmente por parte do ainda presidente da Câmara Rodrigo Maia. Neste domingo, na véspera da eleição, o DEM tomou a decisão de  ficar isento na disputa, posição proposta por Neto que preside o partido, e com isso praticamente colocou os louros da vitória em Arthur Lira, candidato de Jair Bolsonaro. O ainda presidente da Câmara Rodrigo Maia sentiu o golpe e, se antes já dizia que o DEM corria o risco de tornar-se “o partido da boquinha”, referindo-se aos cargos e às emendas distribuídas pelo Palácio do Planalto, ao saber da decisão colocou a carapuça da direita no partido.

“Prevaleceu a posição histórica de um partido de direita. Trabalhamos para trazê-lo para o caminho certo, mas a natureza da direita prevaleceu”, afirmou Maia.

Na verdade, o que vai acontecer no Congresso Nacional nesta segunda-feira é o que sempre aconteceu, seja na eleição de Severino Cavalcanti ou de Eduardo Cunha, ou seja, o Centrão, como Minas, está onde sempre esteve e, ganhando a presidência da Câmara, vai tirar de Bolsonaro tudo que ele pode dar.

Mas o que importa agora é analisar o processo e a estratégia política do ex-prefeito ACM Neto. O DEM presidia as duas casa do Congresso e a estratégia do seu presidente, ACM Neto, foi a de manter pelo menos uma das casas na mão do partido e na hora H, a medida que percebeu que a eleição na Câmara estava cada vez mais difícil, abandonou Maia e jogou todas as fichas no candidato do DEM, Rodrigo Pacheco, a presidência do Senado.

Essa é uma leitura. Mas há outra que vinha se desenhando entre alguns parlamentares por ele liderados e que consistia na aproximação cada vez maior ao governo Bolsonaro, com os olhos voltados para a eleição de 2022, na qual o presidente será o principal player. Nessa estratégia a aproximação a Bolsonaro – cujos candidatos vão vencer a eleição na Câmara e no Senado e assim poderão abrir a porta para que os projetos do governo sejam aprovados – estaria dada e, nas entrelinhas, é isso que Rodrigo Maia está dizendo ao afirmar que o DEM pendeu para a direita. Caso algum liderado do prefeito ACM Neto assuma um Ministério ou  posição central no governo essa segunda hipótese estará avalizada.

Neste caso, o DEM assumiria com antecedência o apoio à reeleição do Presidente, afastando-se assim do governador João Dória que, candidatíssimo, manteve-se discreto na disputa parlamentar.

Mas tudo isso são hipóteses e ainda há uma terceira leitura do episódio que, ao que parece, tende a ser a mais real. Nessa leitura, a eleição de membros do Centrão para a presidência da Câmara e do Senado, não tem a ver com direita ou esquerda e nem determinaria um apoio imediato ao presidente nas eleições de 2022. Quer dizer apenas que parte do poder da República deslocou-se para o Centrão, que o Presidente Jair Bolsonaro estará cada vez mais refém desse grupo político e que, antes de 2022, muita água ainda vai rolar. Nesse caso, a posição de ACM Neto terá sido comandada pelo pragmatismo.

De todo modo, como dizia uma velha raposa política, na política as coisas mudam mais rápido do que as nuvens, o Centrão não é um bloco monolítico, e Bolsonaro só será um player nas eleições de 2022 se deixar de lado a pauta de costumes, abandonar as bravatas e os palavrões e começar a governar. (EP – 1/02/2021)