JORNAL A TARDE – ARMANDO AVENA: A VACINA, O LOCKDOWN E A RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

JORNAL A TARDE - ARMANDO AVENA: A VACINA, O LOCKDOWN E A RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

Nas duas últimas semanas não se ouviu falar o Ministro da Economia e nem era preciso, afinal neste momento a única medida de política econômica indispensável é a vacinação em massa, como reconheceu o próprio Paulo Guedes. O início imediato da vacinação é fundamental porque no primeiro momento vai  focar nas populações de alto risco, que, com eficiência, podem ser vacinadas em dois ou três meses.

Com isso, afasta-se o fantasma do lockdown, pois se os grupos de risco, responsáveis pelo maior número de internações, começarem a ser vacinados, a pressão nas UTIs será gradualmente menor e o sistema de saúde poderá administrar com mais eficiência a pandemia. Isso é importante, porque as propostas de implantação de novo lockdown estão voltando e se elas se concretizarem o efeito na economia será desastroso.

Os países da Europa podem se dar ao luxo de fazer lockdown porque são economias fortes, com lastro em euros, e ainda tem o apoio e a ajuda financeira da União Europeia. Bem diferente do Brasil, com seus quase 15 milhões de desempregados, cujas contas públicas estão em frangalhos, a ponto do presidente da República dizer que o país está quebrado. O Brasil já terá um primeiro trimestre muito difícil, no qual será necessário buscar alternativas para compensar o fim do auxílio emergencial e de outras medidas de apoio à população e aos pequenos e médios empresários e, se uma nova rodada de isolamento social rígido for implantada, os efeitos serão graves.

Aqui vale lembrar que não se trata de escolher entre saúde e economia,  mas de adotar uma política racional, que coíba fortemente as  aglomerações nas ruas, em festas e praias, que faça intervenções localizadas e exija a observância rigorosa dos protocolos de segurança, mantendo, porém, o funcionamento da economia e  colocando o lockdown como a última das alternativas. Aliás, são compreensíveis as declarações do Prefeito de Salvador, Bruno Reis, que considerou radical as propostas do Comitê Científico do Nordeste propondo um novo lockdown na região, afinal Salvador é uma cidade com mais de 60% de sua população sobrevivendo de atividades informais e, sem o auxílio emergencial, o efeito do isolamento social nos estratos de renda mais baixos será dramático.

Além disso, cerca de 70% do PIB soteropolitano é gerado no setor serviços, o que mais sofreu no ano passado, e as empresas do setor  dificilmente teriam condições de enfrentar uma nova rodada de isolamento social. Muito mais racional do que  propor um lockdown é exigir que a ANVISA agilize a aprovação das vacinas e que  o governo federal forneça data e estratégia para dar início à vacinação imediata de idosos inclusive, se a comunidade científica der o aval e a eficácia for mantida, o uso de apenas uma dose no momento inicial para que a disseminação seja maior.

Olhando para a economia baiana é possível verificar que a retomada dos negócios já é uma realidade, detectável nos principais indicadores econômicos, inclusive no setor turismo, e isso mostra a resiliência de nossa base produtiva, embora ainda estejamos longe dos níveis de atividade verificados antes da pandemia. Sustar essa recuperação  com um isolamento social amplo será cortar as pernas da retomada econômica e,  se assim for, vai demorar para que ela possa voltar a andar.

                                                        O DELAY E A ECONOMIA

Tudo em economia tem um delay, ou seja, qualquer ação leva algum tempo para fazer efeito. A injeção de R$ 50 bilhões de reais por mês na economia, por conta do auxílio emergencial, aumentou o consumo, que é a variável econômica que responde mais rápido aos estímulos e foi o responsável pelo crescimento de 7,7% do PIB no 3º trimestre. Mas o estímulo teve dois efeitos retardados: de um lado o aumento da inflação e de outro a escassez de produtos muito demandados.  O delay também se verifica no controle da inflação e ela, que se disseminava vagarosamente, começa a dar sinais de aceleração. Se não houver sinais de que vai ser contida, a previsão inflacionária se auto realizará.