Malga Di Paula, viúva de Chico Anysio, morto em 2012, Malga divulgou uma carta aberta ao ator, roteirista e humorista Bruno Mazzeo, um dos filhos de Chico, nesta segunda-feira (30) em que afirma que teve que procurar a imprensa já que o ator a bloqueou no WhatsApp, não a atende nem responde seus e-mails para resolver sobre o testamento do comediante, que foi anulado pela Justiça brasileira.
Segundo a sentença proferida pelo Juiz da 2ª Vara da Família da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, Chico contemplou a totalidade de seus bens, quando deveria ter contemplado apenas a metade deles, segundo a disposição do Código Civil. Além disso, ele não contemplou um de seus filhos, o humorista Lug de Paula, de 63 anos, na herança. Por conta dessas falhas na elaboração do testamento, os herdeiros se uniram e entraram com um pedido de anulação do mesmo, que foi concedido pela Justiça.
Malga acusa Mazzeo e os demais irmãos do ator de não terem prestado contas até hoje dos objetos e parte do patrimônio intelectual do comediante. De acordo com ela, isso estaria impossibilitando que Lug de Paula, conhecido por viver o Seu Boneco na primeira versão da Escolinha do Professor Raimundo, que ficou de fora do testamento, fizesse parte da partilha de bens.
Leia, abaixo, a carta de Malga na íntegra:
”Caro Bruno, finalmente encontrei uma forma de nos comunicarmos (pela imprensa), uma vez que você me bloqueou em seu WhatsApp, não responde meus e-mails e não me atende ao telefone. Para esclarecimento — Por que eu deixei de ser inventariante e não recorri? Primeiro: eu não recorri pois não tinha interesse algum em continuar na função, principalmente por estar há um longo tempo com minha saúde debilitada devido a intermitentes crises de depressão, conforme laudo anexado ao processo. Segundo: Enquanto inventariante, as funções podem não ter acontecido regularmente por conta do meu estado de saúde e pela falta de orientação adequada. Todavia, eu não tenho problema algum em falar sobre isso, já que a humildade, segundo meus princípios, é um dos valores que mais prezo, da mesma forma que Chico Anysio, meu falecido marido, também prezava. Sobre o comportamento desidioso (preguiçoso) que vocês e seus representantes insistem em repetir, não me abala, estou habituada a comentários preconceituosos, já que é muito comum a discriminação aos portadores de transtorno depressivo maior (depressão), doença que seu pai também era portador. Quanto à anulação do testamento, após o pedido de Luiz Guilherme, eu, orientada pela minha Advogada à época, fui a primeira pessoa a concordar com ele, entendendo que a lei não permitia a exclusão de um herdeiro legítimo. Somente depois de minha manifestação, você e seus irmãos compareceram ao processo para concordar com o pedido de Luiz Guilherme. Em novembro de 2017, contratei novos advogados e recebi a orientação de que o testamento não poderia ser anulado antes que você e seus irmãos prestassem conta de objetos e parte do patrimônio intelectual que eu, respeitando os desejos de seu pai, lhes entreguei em 2015. É intrigante que até hoje vocês nunca tenham se manifestado a respeito deste patrimônio, que se encontra sob sua guarda, o que me leva a crer que os desejos de seu pai são respeitados somente a seu favor, mas quando dizem respeito a mim, sua vontade é desprezada. Então, Bruno, eu não passei a defender a tese de que o testamento que alija um filho não deserdado é válido, como você diz. Eu passei a defender que o material entregue a vocês deverá ser apresentado para a redistribuição, contemplando, assim, o seu irmão mais velho. Esta é uma questão moral.
Caro Bruno, eu não preciso parecer ética, conforme você fala em sua nota, eu sou ética e foi
por isso que seu pai me escolheu para ser sua companheira em um dos momentos mais
difíceis de sua vida. Ele sentiu que, acometido por uma doença terrível, poderia contar com a
minha dedicação e todo o meu amor por 14 anos, até a sua morte. Você fala em sua nota que minhas intenções são puramente pecuniárias (financeiras), mas afinal, qual é mesmo a intenção de cada um de vocês? Se elas não são pecuniárias (financeiras), será nobre de sua parte abrir logo mão de tudo em prol de uma instituição de caridade. Sobre o apartamento, de minha propriedade, adquirido com uma doação de seu pai feita em vida, me recuso a acreditar que todos vocês, ‘que ganharam seu próprio apartamento’, estejam desrespeitando o desejo de seu pai, tentando retirar de mim a casa que eu compartilhei com ele e foi nosso lar nos últimos anos de sua vida.
Notas
1 – Importante lembrar que todas as ex-mulheres de seu pai, suas mães também ganharam
seus próprios imóveis;
2 – Seria honroso de sua parte esclarecer que as dívidas de Condomínio e IPTU do
apartamento da Península foram acumuladas durante a sua gestão como inventariante já que, não havia dívida alguma enquanto esteve sob minha gestão.
3 – Louvável também seria se vocês advertissem a Senhora ‘decadente colunista’ do Rio de
Janeiro por ter feito uma publicação afirmando que eu teria me apropriado de valores
referentes a direitos autorais de seu pai. Esta também é uma questão moral, Bruno.
Importante fazermos o seguinte raciocínio: Caso considerássemos que apenas 50% do
apartamento fosse meu, teriam vocês a coragem de contrariar a vontade de seu pai e tomar
para si os outros 50% apenas porque o testamento foi anulado? Novamente uma questão
moral.
Para concluir, quero deixar claro que, ao dirigir-se a mim pelo meu nome de batismo
(Malgarete), com a única intenção de me subestimar não funcionou. Tenho orgulho de meu
nome. Também não me subestimam os sarcásticos comentários frequentemente dirigidos a
mim nas petições apresentadas pelos seus advogados durante estes 8 anos. De toda forma, caro Bruno, peço licença para lembrar a você que apesar do meu desabafo, durante todos estes anos sempre fui ponte entre seu pai e vocês. Por inúmeras vezes fomentei a concórdia entre todos. A nossa porta estava sempre aberta a todos vocês, para chegar e saírem quando quisessem. O quanto seu pai pôde, o quanto de forças teve, procurou dar tudo a todos (a cada núcleo). Meu sonho seria imaginar que em homenagem à memória dele e a tudo que vivemos, ele ainda possa assistir, de onde estiver, que nós nos compomos, nos respeitamos e cumprimos a vontade dele.
Malga Di Paula
Malgarete Dall Agnol de Oliveira Paula”
-foto: instagram