JOSÉ MACIEL: PANDEMIA E AÇÕES GOVERNAMENTAIS

JOSÉ MACIEL: PANDEMIA E AÇÕES GOVERNAMENTAIS
Ao tempo em que a OMS decretou na última semana a Pandemia do Coronavirus, a epidemia dá claros sinais de ter chegado ao pico e  ter desacelerado fortemente na China , e,  também, em  países asiáticos, como o Japão, Coreia do Sul, Hong Kong, Taiwan e Cingapura .
Antecipamos que há muito que aprender  com estes países  em termos de medidas adotadas, como restrições à circulação de pessoas, controle de fronteiras, comunicação eficiente, disciplina e adesão das populações às recomendações dos   governos, dentre outras. Algumas dessas ações foram tomadas ainda que na época de sua aplicação não fossem   indicadas pela OMS. Este receituário tem tido e fic&aacu te;cia e o numero de infectados e óbitos  (à exceção da China, neste caso) tem sido   baixos.
Mais recentemente, a epidemia  migrou para a Europa, considerado o novo epicentro, com cenários preocupantes para a Itália, Espanha, e também  Alemanha, França , Inglaterra e outros países, chegando ao Brasil e América Latina após o carnaval. Os EUA também registram situações preocupantes.
No início dos casos no Brasil, o presidente da república, em viagem aos EUA, adotou uma postura de subestimação, afirmando que este virus não é essa coisa toda, como “propala” a imprensa, um pouco ao estilo do ex-presidente Lula, em 2008, quando  disse que se a crise (de 2008) chegasse ao Brasil, seria uma “marolinha”. O resto desse filme de 12 anos atrás  os brasileiros   já conhecem.
A postura de qualquer governo não é semear o pânico para a população,  mas não se deve subestimar certas situações , como a atual e a de 2008. Ressalte-se, no caso atual, que o ministro Mandetta , da Saúde, vem adotando uma conduta  de muita seriedade e  transparência  no trato com esta epidemia,  tomando as primeiras providências e recomendações para a população , procurando assegurar os recursos para  as ações emergenciais que se afiguram necessárias, calcado sempre nas recomendações de médicos e especialistas, e  com apoio de uma equipe competente.
As recomendações de fechamento de escolas, cancelamentos de eventos de grandes aglomerações,   uma certa “vida reclusa” temporária sugerida  e mudanças de alguns hábitos (não cumprimentar com as mãos, lavar as mãos com mais frequência, etc.)deverão ser seguidas pela população  para suavizar a curva de pico  epidemia de modo a não congestionar a rede hospitalar e de saúde pública e privada. Disciplina e adesão da população neste momento são atitudes importantes.
Além dos cenários de infectados e mortes causarem preocupação, por conta da impressionante velocidade de transmissão do virus e da ausência de vacina ou medicamento de cura, no plano econômico, os estragos e quedas expressivas nas Bolsas internacionais, incluindo a nossa, e os impactos nos setores produtivos e de serviços não têm  sido nada desprezíveis.
O setor de turismo, a situação das companhias aéreas, com queda drástica da atividade e cancelamento de voos , e de cruzeiros, as repercussões em segmentos da indústria, sobretudo as que dependem de insumos e componentes importados, especialmente da China, constituem exemplos  de setores bastante afetados, requerendo algumas medidas de apoio governamental, de curtíssimo prazo. Crédito e uso de bancos p úblicos , adiamento ou parcelamentos  no pagamento de tributos e outras medidas , inclusive destinadas à população,   não devem descartadas .
Embora, na teoria deva ser menos  ser menos afetada, a agropecuária pode sofrer alguma impacto. No momento presente, porém, há que se destacar que alguns segmentos estão se saindo bem, sobretudo com a   conjuntura da disparada do dólar, a exemplo das exportações  e das crescentes vendas antecipadas das safras futuras de soja e milho, a serem plantadas no segundo semestre.  Soja e milho são componentes importantes  para a composição de rações  e alimento para a produção de proteínas animais  (ver a respeito o Valor Econômico, de 14 de março último, página B10).
Finalmente, a  agenda de de reformas, em alguns casos com efeitos mais de médio e longo prazo , continua importante , mas não deve ser a agenda de maior preocupação do Parlamento nos próximos 45 dias. Isso é o que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, tentou passar ao ministro Paulo Guedes. Muito preso à  essas matérias , o ministro não parece ter muita boa vontade quando se trata de propor medidas de curto prazo para dar algum impulso à economia. Nesse particular, o país vai ter também de  revisar suas projeções de crescimento da economia para 2020, pois qualquer prognóstico acima de 2 % este ano parece difícil de ser alcançado.
(1) Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.  E-mail:  jose.macielsantos@hotmail.com