JOSÉ MACIEL- CORONA VIRUS, ECONOMIA E AGROPECUÁRIA: UMA ABORDAGEM PRELIMINAR

JOSÉ MACIEL- CORONA VIRUS, ECONOMIA E AGROPECUÁRIA: UMA ABORDAGEM PRELIMINAR

Num artigo que envolve temas de saúde pública, com a emergência de nova doença , com aspectos preocupantes, é oportuno fazer dois registros iniciais.

 

O primeiro diz respeito ao fato de que, embora se trate aqui de possíveis impactos econômicos decorrentes dessa nova  doença, o mais relevante a lamentar e a mencionar é  indiscutivelmente a perda de vidas humanas já ocorridas por conta do novo corona virus  e aquela  que  ainda deverá ocorrer com essa epidemia. Isso não tem preço e nenhum analista econômica pode  ignorar.

Em segundo lugar, é importante antecipar que ainda é cedo para se empreender uma razoável avaliação dos possíveis impactos nas economia mundial e brasileira, e suas repercussões  no plano setorial, e aqui o que mais interessa é a repercussão no nosso agronegócio, particularmente nas exportações para a China, nosso maior  importador ( com cerca de 34% de nossas  vendas externas setoriais),  e para o resto do mundo. Cabe destacar inclusive que a análise da SARS, ocorrida a partir da China em 2002/2003, e que vitimou cerca de 800 pessoas, não serve muito para  nossa abordagem aqui porque a nova epidemia, a despeito da menor letalidade, já suplantou a SARS  em número de óbitos. Ademais, dita análise da SARS  se referiu a uma &e acute;po ca em que a economia chinesa não tinha a importância que tem atualmente. A China detinha um participação  de 5% da economia mundial em 2002 e hoje essa parcela já foi aproximadamente triplicada.

 

Quanto à economia, além dos efeitos nada desprezíveis na atividade  turística internacional , de lazer e de negócios, com o cancelamento de viagens e voos para a China e as restrições do governo chinês ´para a saída de seus compatriotas do país e mesmo internamente, no comércio  e serviços dentro dessa grande nação asiática,  as especulações iniciais parecem apontar   para uma epidemia mais agressiva concentrada no primeiro trimestre deste ano, com repercussões  na desaceleração  do crescimento da economia chinesa , e redução das suas   exportações  e importações,  afetando, desse modo, as exportações brasileiras para este nosso g rande pa rceiro comercial. Nesse cenário, a indústria nacional  sofreria certo grau de falta de insumos importados, e  o agronegócio  poderia ser  afetado, mas em menor intensidade que outros setores. Alguns  analistas estimam que a taxa de crescimento da economia chinesa  poderia recuar  para um patamar ao redor de 5,4% 5,5% este ano,  bem abaixo das previsões no patamar de 6% ou mais, como tem sido o padrão histórico.

 

No atual momento , já se observa queda de preços de algumas commodities importantes de nossa economia, como soja, petróleo e minério de ferro.  É de se ressaltar, de mais a mais, que essa epidemia adiciona mais um ingrediente de incerteza ao agronegócio brasileiro  , somando-se ao  acordo comercial da China com os EUA firmado recentemente ,  que prevê compras preferenciais chinesas de produtos   agropecuários norte-americanos,  com potencial de eventualmente  deslocar parte  de nossas vendas externas setoriais para o mercado chinês.

 

Do lado do Brasil,  o governo adota postura de dispensar um tratamento cortês ao governo do país asiático, chamando inclusive o  Embaixador  chinês para um reunião com nosso Ministro da Saúde, para se inteirar de nossas providências de resgate dos brasileiros  do epicentro da epidemia, resgate que se consumou hoje com chegada dos dois aviões da FAB em Anápolis. A ministra Tereza Cristina tem tido um papel ativo junto ao citado embaixador, que tem confirmado   que o relacionamento Brasil/China no campo do agronegócio é duradouro e cada vez mais estreito.

 

Ainda do lado brasileiro, a meta é manter e ampliar   nossa fatia no mercado agropecuário chinês  , inclusive diversificando a pauta, incluindo a abertura recente para nossas exportações de melão e  estudos para abrir o mercado para as uvas brasileiras. Quem  sabe, no futuro, outras fruteiras possam ganhar espaços em negociações com os chineses. Outros países asiáticos e do Oriente Médio têm de estar no nosso “radar”.

 

Em outra frente, temos  de manter a vigilância sanitária vegetal e animal, para evitar novos episódios similares ao da chamada Operação Carne Fraca, que provocou desconfiança de nossos importadores. Nesse particular, consideramos prematuro implantar a proposta de autocontrole, ventilada pelo Ministério  da Agricultura. Voltaremos a esse tema mais a frente.

 

Finalmente, cabe atentar para as indicações do Ministério da Agricultura e para a Organização Internacional de Saúde Animal , no sentido de que não há registro de ocorrência de qualquer tipo de corona virus em qualquer espécie animal no mundo, e que , portanto,  não ha motivos para restringir o comércio agropecuário internacional. De todo , teremos de estar atentos ao cenário da doença do novo corona virus nas próximas semanas.

 

 

 

(1) Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.  E-mail:  jose.macielsantos@hotmail.com