{"id":997889,"date":"2026-05-21T15:00:20","date_gmt":"2026-05-21T18:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/bahiaeconomica.com.br\/wp\/?p=997889"},"modified":"2026-05-21T20:49:02","modified_gmt":"2026-05-21T23:49:02","slug":"ma-gestao-de-residuos-amplia-perdas-economicas-e-ameaca-biodiversidade-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bahiaeconomica.com.br\/wp\/2026\/05\/21\/ma-gestao-de-residuos-amplia-perdas-economicas-e-ameaca-biodiversidade-no-brasil\/","title":{"rendered":"M\u00c1 GEST\u00c3O DE RES\u00cdDUOS AMPLIA PERDAS ECON\u00d4MICAS E AMEA\u00c7A BIODIVERSIDADE NO BRASIL"},"content":{"rendered":"<p>No debate ambiental brasileiro, poucas discuss\u00f5es continuam sendo tratadas de forma t\u00e3o superficial quanto a gest\u00e3o de res\u00edduos. Embora a preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade costume aparecer associada \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de florestas, rios e esp\u00e9cies amea\u00e7adas, cresce entre especialistas, investidores e empresas a percep\u00e7\u00e3o de que o funcionamento das cidades passou a exercer papel central sobre a capacidade do pa\u00eds de preservar seus pr\u00f3prios recursos naturais. Em um cen\u00e1rio de press\u00e3o internacional por rastreabilidade, economia circular e redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es, o lixo deixou de representar apenas um problema urbano para se consolidar como um gargalo econ\u00f4mico, industrial e ambiental.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros ajudam a revelar a escala estrutural do problema. Segundo o Panorama dos Res\u00edduos S\u00f3lidos no Brasil 2025, o pa\u00eds ainda destina de maneira irregular cerca de 28 milh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos por ano. Ao mesmo tempo, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Res\u00edduos e Meio Ambiente (ABREMA) estima que mais de 40% do lixo produzido nacionalmente ainda tenha destina\u00e7\u00e3o inadequada, incluindo lix\u00f5es e \u00e1reas sem controle ambiental. O impacto ultrapassa a deteriora\u00e7\u00e3o visual das cidades. A m\u00e1 gest\u00e3o dos res\u00edduos contaminam len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, compromete cadeias produtivas, pressiona biomas estrat\u00e9gicos e amplia custos operacionais para empresas e munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Para Eduardo Nascimento, CEO da greentech Minha Coleta, empresa especializada em rastreabilidade, log\u00edstica reversa e gest\u00e3o estrat\u00e9gica de res\u00edduos, o Brasil ainda enfrenta o problema sob uma l\u00f3gica limitada, tratando res\u00edduos apenas como descarte, quando eles j\u00e1 deveriam ser vistos como ativos econ\u00f4micos dentro de uma nova din\u00e2mica produtiva. Segundo ele, a biodiversidade n\u00e3o pode mais ser debatida de forma isolada da infraestrutura urbana e da efici\u00eancia operacional das cidades.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, as pessoas olham para a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e pensam apenas em manter a floresta de p\u00e9. Mas a verdade \u00e9 que o que acontece nas cidades dita o que acontece nas florestas e nos oceanos. Quando tiramos o res\u00edduo do modelo linear e o trazemos para a economia circular, reduzimos a press\u00e3o por novas mat\u00e9rias-primas e evitamos que contaminantes cheguem a biomas sens\u00edveis. Gerir o lixo \u00e9, na pr\u00e1tica, proteger o solo que sustenta a vida e as \u00e1guas que circulam pelo pa\u00eds\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do executivo, o Brasil ainda subestima o impacto econ\u00f4mico provocado pela baixa capacidade de reaproveitamento de res\u00edduos. Isso porque, al\u00e9m dos danos ambientais, o descarte inadequado reduz efici\u00eancia produtiva, aumenta a depend\u00eancia de mat\u00e9ria-prima virgem e cria um ciclo de desperd\u00edcio que afeta diretamente empresas, cidades e cadeias industriais inteiras. Para Eduardo, a discuss\u00e3o sobre biodiversidade precisa sair do campo exclusivamente ambiental para ocupar tamb\u00e9m o centro das estrat\u00e9gias econ\u00f4micas e urbanas.<\/p>\n<p>O custo invis\u00edvel da m\u00e1 gest\u00e3o de res\u00edduos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A deteriora\u00e7\u00e3o ambiental causada pela destina\u00e7\u00e3o irregular dos res\u00edduos tamb\u00e9m ocorre longe dos holofotes. Eduardo chama aten\u00e7\u00e3o para aquilo que considera um dos impactos mais perigosos da crise do lixo no Brasil: a contamina\u00e7\u00e3o invis\u00edvel causada pelo chorume. O l\u00edquido t\u00f3xico gerado pela decomposi\u00e7\u00e3o de res\u00edduos infiltra no solo, alcan\u00e7a len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e compromete rios que abastecem cidades e sustentam ecossistemas inteiros. Em biomas como Cerrado e Mata Atl\u00e2ntica, a contamina\u00e7\u00e3o afeta desde microrganismos essenciais para a fertilidade do solo at\u00e9 esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas impactadas pela redu\u00e7\u00e3o do oxig\u00eanio na \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u201cExiste um v\u00ednculo umbilical entre o descarte mal feito e a degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Hoje, o Brasil gera cerca de 81 milh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos por ano e ainda destina aproximadamente 40% desse volume para locais inadequados, como lix\u00f5es. O impacto mais preocupante \u00e9 justamente aquele que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o v\u00ea. O chorume infiltra no solo, alcan\u00e7a o len\u00e7ol fre\u00e1tico e contamina os rios que sustentam biomas inteiros. Estamos falando de um efeito silencioso, mas extremamente agressivo para a biodiversidade e para a pr\u00f3pria seguran\u00e7a h\u00eddrica do pa\u00eds\u201d, afirma o executivo.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da polui\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica ajuda a traduzir a dimens\u00e3o econ\u00f4mica e ambiental do problema. Estimativas apontam que cerca de 1,3 milh\u00e3o de toneladas de pl\u00e1stico chegam aos oceanos anualmente no Brasil. O efeito j\u00e1 come\u00e7a a atingir n\u00e3o apenas a fauna marinha, mas setores inteiros da economia ligados \u00e0 pesca, ao turismo e \u00e0 pr\u00f3pria ind\u00fastria aliment\u00edcia. Em necropsias realizadas em animais marinhos nas regi\u00f5es Sul e Sudeste, aproximadamente metade apresentava ingest\u00e3o de res\u00edduos pl\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Para Eduardo, o pa\u00eds ainda discute a quest\u00e3o de forma atrasada, concentrando esfor\u00e7os apenas em limpeza urbana, enquanto o problema exige revis\u00e3o estrutural de cadeias produtivas e do pr\u00f3prio design das embalagens.<\/p>\n<p>\u201cO pl\u00e1stico talvez seja hoje um dos maiores gargalos ambientais que enfrentamos. N\u00e3o estamos falando apenas de res\u00edduos acumulados nas praias, mas de impactos que j\u00e1 atingem cadeias produtivas inteiras e chegam at\u00e9 a sa\u00fade humana atrav\u00e9s dos micropl\u00e1sticos. Em necropsias feitas em animais marinhos no Sul e Sudeste, cerca de 50% apresentavam ingest\u00e3o de pl\u00e1stico. Isso mostra que o problema deixou de ser pontual. Precisamos repensar a origem dos produtos, o design das embalagens e garantir que esse material nunca chegue aos oceanos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Apesar do aumento da press\u00e3o social sobre sustentabilidade, o Brasil ainda enfrenta falhas estruturais que impedem avan\u00e7os mais consistentes em economia circular. Entre os principais entraves est\u00e3o a baixa infraestrutura de triagem, a aus\u00eancia de profissionaliza\u00e7\u00e3o da cadeia de reciclagem e a dificuldade de transformar consci\u00eancia ambiental em pr\u00e1tica operacional. Embora cerca de 90% da popula\u00e7\u00e3o considere a reciclagem importante, apenas 64% efetivamente realiza a separa\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o setor ainda convive com distor\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que dificultam o avan\u00e7o da circularidade. Em muitos casos, o custo da resina pl\u00e1stica virgem permanece inferior ao do material reciclado, reduzindo o incentivo da ind\u00fastria para utiliza\u00e7\u00e3o de insumos reaproveitados. Para Eduardo, o problema revela uma desconex\u00e3o entre discurso ambiental e estrutura econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u201cAinda batemos de frente com a falta de infraestrutura e com uma desconex\u00e3o muito grande entre consci\u00eancia e pr\u00e1tica. A maior parte da popula\u00e7\u00e3o entende a import\u00e2ncia da reciclagem, mas isso ainda n\u00e3o se traduz completamente em comportamento. Al\u00e9m disso, o custo da mat\u00e9ria-prima virgem muitas vezes continua menor do que o do material reciclado, o que desestimula a ind\u00fastria. Falta profissionalizar a cadeia, investir em infraestrutura de triagem e dar suporte real aos catadores, que hoje sustentam grande parte da reciclagem brasileira\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Da pauta ambiental ao centro da estrat\u00e9gia econ\u00f4mica<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a log\u00edstica reversa passou a ganhar protagonismo dentro desse cen\u00e1rio. Impulsionadas por novas exig\u00eancias regulat\u00f3rias e pela crescente demanda do mercado por maior controle e transpar\u00eancia ambiental, empresas passaram a incorporar recupera\u00e7\u00e3o de res\u00edduos, monitoramento e gest\u00e3o de descarte como parte das pr\u00f3prias estrat\u00e9gias de competitividade. As metas nacionais estabelecem recupera\u00e7\u00e3o de 32% das embalagens at\u00e9 2026, movimento que vem acelerando investimentos em tecnologia, rastreamento e efici\u00eancia operacional.<\/p>\n<p>Para Eduardo, a log\u00edstica reversa deixou de ocupar apenas o espa\u00e7o da sustentabilidade corporativa para se consolidar como ferramenta estrat\u00e9gica de efici\u00eancia econ\u00f4mica e redu\u00e7\u00e3o de riscos operacionais.<\/p>\n<p>\u201cA log\u00edstica reversa deixou de ser tend\u00eancia para virar regra de mercado. Hoje, empresas entenderam que recuperar res\u00edduos n\u00e3o \u00e9 apenas uma obriga\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m uma forma de reduzir a depend\u00eancia de mat\u00e9ria-prima, otimizar custos e fortalecer competitividade no longo prazo. Mas precisamos tomar cuidado para que isso n\u00e3o vire apenas rastreamento burocr\u00e1tico de notas fiscais. A l\u00f3gica precisa estar conectada \u00e0 reinser\u00e7\u00e3o real dos materiais na cadeia produtiva e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma economia efetivamente circular\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de comportamento do mercado tamb\u00e9m acelerou a transforma\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o de res\u00edduos em tema financeiro. Segundo Eduardo, investidores passaram a observar riscos ambientais sob a \u00f3tica de exposi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, reputacional e operacional, especialmente em empresas sem mecanismos eficientes de controle e rastreabilidade.<\/p>\n<p>\u201cA press\u00e3o hoje \u00e9 muito concreta. Investidores passaram a olhar para a biodiversidade e gest\u00e3o de res\u00edduos como fatores de risco financeiro. Se uma empresa n\u00e3o consegue rastrear corretamente seus res\u00edduos, ela fica exposta a problemas jur\u00eddicos, reputacionais e at\u00e9 limita\u00e7\u00f5es de acesso a capital internacional. O mercado n\u00e3o aceita mais relat\u00f3rios bonitos sem comprova\u00e7\u00e3o. Impacto declarado sem dado consistente virou fragilidade operacional\u201d, diz.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a tecnologia passou a desempenhar papel central dentro da nova economia circular. Ferramentas de intelig\u00eancia artificial aplicadas \u00e0 triagem de materiais, sensores de monitoramento log\u00edstico e plataformas integradas de dados v\u00eam permitindo que empresas e cidades acompanhem em tempo real a destina\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos e construam indicadores mais confi\u00e1veis de efici\u00eancia operacional.<\/p>\n<p>\u201cA tecnologia \u00e9 o que permite escalar essas solu\u00e7\u00f5es. Hoje conseguimos usar rastreabilidade, intelig\u00eancia artificial e monitoramento em tempo real para garantir que os res\u00edduos cheguem ao destino correto e para construir indicadores alinhados a padr\u00f5es internacionais como GRI e SASB. Ferramentas como sensores IoT e IA aplicada \u00e0 triagem est\u00e3o tornando as cidades mais inteligentes e os dados ambientais finalmente confi\u00e1veis\u201d, afirma Eduardo.<\/p>\n<p>Na Minha Coleta, a estrat\u00e9gia de rastreabilidade j\u00e1 come\u00e7a a produzir impactos diretos sobre redu\u00e7\u00e3o de custos e aumento das taxas de recupera\u00e7\u00e3o. Segundo dados da empresa, mais de 250 mil toneladas de res\u00edduos foram gerenciadas de forma audit\u00e1vel em 2025, com taxa m\u00e9dia de recupera\u00e7\u00e3o de 42%, \u00edndice significativamente acima da m\u00e9dia nacional estimada em cerca de 8%.<\/p>\n<p>Em opera\u00e7\u00f5es voltadas ao varejo farmac\u00eautico, um dos projetos monitorados pela startup gerou economia direta de R$12,5 mil em apenas cinco meses ap\u00f3s reestrutura\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da frequ\u00eancia de coleta. J\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o civil, opera\u00e7\u00f5es realizadas com a Cyrela alcan\u00e7aram \u00edndice de recupera\u00e7\u00e3o de 84% em dez obras simult\u00e2neas, resultado considerado elevado para um dos setores que mais geram res\u00edduos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da economia circular vem transformando a gest\u00e3o de res\u00edduos em um indicador direto de efici\u00eancia econ\u00f4mica, competitividade industrial e capacidade de inova\u00e7\u00e3o urbana. Para Eduardo, o Brasil possui uma oportunidade rara de transformar a biodiversidade em vantagem competitiva global, mas ainda opera abaixo do potencial por falta de infraestrutura, governan\u00e7a e prioridade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil tem uma biodiversidade \u00fanica e um potencial de economia circular gigantesco. O que falta \u00e9 coragem de tratar res\u00edduos com a mesma seriedade com que tratamos nossas finan\u00e7as. Para avan\u00e7armos, precisamos modernizar a infraestrutura de triagem, profissionalizar toda a cadeia de reciclagem e ter toler\u00e2ncia zero com lix\u00f5es. O futuro \u00e9 rastre\u00e1vel, circular e consciente, mas ele tamb\u00e9m precisa ser economicamente vi\u00e1vel e tratado como prioridade estrat\u00e9gica para o pa\u00eds\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No debate ambiental brasileiro, poucas discuss\u00f5es continuam sendo tratadas de forma t\u00e3o superficial quanto a gest\u00e3o de res\u00edduos. 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