QUELOIDES SÃO ATÉ 15 VEZES MAIS FREQUENTES EM PELES NEGRAS; MÉDICA ALERTA PARA PREVENÇÃO E TRATAMENTO


Foto: Crédito: Dr. Michael H. TirganUma cicatriz que cresce além dos limites do ferimento, provoca coceira, dor e desconforto pode ser sinal de queloide. A condição, caracterizada pela produção excessiva de tecido cicatricial, é benigna, mas apresenta uma incidência significativamente maior em pessoas negras e de pele mais pigmentada. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a frequência pode ser até 15 vezes superior à observada em pessoas de pele mais clara.
O alerta ganha dimensão especial na Bahia, estado onde 80,8% da população se autodeclara preta ou parda, segundo dados do IBGE de 2022 analisados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). Em Salvador, o cenário é ainda mais expressivo: 83,2% dos habitantes são negros, considerando pretos e pardos. Apesar dessa realidade, não existem estatísticas epidemiológicas consolidadas que dimensionem a quantidade de pessoas com queloides na capital e no estado, evidenciando uma lacuna nos registros e no acompanhamento dessa condição.
A predisposição genética é um dos principais fatores associados ao desenvolvimento dos queloides. Cortes, queimaduras, cirurgias, perfurações para brincos, tatuagens, acne e até picadas de insetos podem desencadear o problema. Estudos do Grupo de Estudos Multicêntricos sobre Cicatrizes Hipertróficas e Queloides. (GREMCIQ), publicados em periódico científico internacional, apontam que pessoas de pele escura e ascendência africana podem apresentar risco aproximadamente 20 vezes maior em comparação às pessoas brancas.
Para a médica Danìelà Hermes, especialista em Saúde Pública e com 20 anos de atuação voltados à saúde integral das peles plurais, a informação e o acompanhamento especializado são fundamentais. “A pele negra possui particularidades que precisam ser consideradas na avaliação e na escolha dos procedimentos. É importante que qualquer alteração cicatricial seja examinada por um profissional capacitado, evitando intervenções inadequadas que possam agravar o quadro”, orienta a especialista que também aponta o uso da Toxina Botulínica como grande aliada no tratamento.
O tratamento pode incluir infiltrações de corticoides, placas ou géis de silicone, crioterapia, laser e, em situações específicas, cirurgia associada a outras terapias para reduzir o risco de recorrência. A retirada cirúrgica isolada exige cautela, pois o queloide pode voltar, inclusive maior do que antes. A escolha depende da localização, extensão e evolução da lesão.
A médica também recomenda atenção redobrada a quem já apresentou queloides ou possui histórico familiar. “Não se deve espremer lesões de acne, realizar procedimentos estéticos sem avaliação ou recorrer a receitas caseiras. Ao perceber uma cicatriz elevada, que cresce progressivamente, coça ou dói, procure um profissional. O diagnóstico e o tratamento precoces ajudam a controlar a evolução”, destaca.
Mais do que uma questão estética, o queloide pode comprometer a autoestima, causar desconforto físico e afetar a qualidade de vida. "Em uma população majoritariamente negra como a baiana, ampliar o acesso à tratamento especializado, à informação e ao diagnóstico representa também uma medida de equidade em saúde", conclui.


