ENTREVISTA COM ISABELA SUAREZ, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DA BAHIA


Foto: : DivulgaçãoBahia Econômica – ACB recentemente divulgou uma nota criticando o preço das passagens aéreas e outros fatores que podem encarecer o turismo. Qual seria a importância da atuação do poder público nessa área para minimizar os efeitos da oscilação das passagens aéreas no turismo no verão?
Isabela Suarez - A atuação do poder público é fundamental para evitar que o aumento dos custos da aviação comprometa a competitividade do turismo baiano, especialmente durante o verão. A alta do querosene de aviação sofre influência do preço internacional do petróleo e do câmbio, fatores sobre os quais o poder público brasileiro tem capacidade limitada de atuação. Mas isso não significa que o governo não tenha responsabilidade.
Seu papel é evitar que os custos internos, sobretudo tributários e regulatórios, agravem ainda mais esse cenário.
Neste momento, uma das maiores preocupações do setor é justamente o impacto da reforma tributária sobre as passagens aéreas. Estimativas das entidades da aviação apontam que a nova tributação pode elevar o preço dos bilhetes domésticos e reduzir a demanda. Ou seja, além de um combustível já caro, existe o risco de acrescentarmos uma carga tributária que torne as viagens ainda menos acessíveis.
O poder público pode atuar preservando a neutralidade tributária do setor, reduzindo burocracias, estimulando a concorrência e, no âmbito estadual, avaliando incentivos sobre o querosene vinculados à manutenção e à ampliação das rotas. Não se trata de tabelar passagens ou conceder benefícios sem retorno. Trata-se de impedir que uma combinação de combustível caro, aumento de impostos e menor oferta de voos prejudique o turismo justamente no verão. Por isso, qualquer medida adotada deve estar vinculada a contrapartidas concretas, como mais conectividade, maior frequência de voos e ampliação da oferta de assentos.
Bahia Econômica – Qual a expectativa que a ACB tem para o comércio e geração de empregos nesse último trimestre de 2026?
Isabela Suarez - O último trimestre costuma aquecer o comércio, impulsionado pela Black Friday, pelo pagamento do décimo terceiro, pelo Natal e pelo início do verão. É um período que tradicionalmente favorece as vendas e amplia as contratações temporárias.
Neste ano, porém, temos uma variável nova: a redução da jornada e a mudança nas escalas de trabalho. As empresas precisarão reorganizar suas equipes para manter o funcionamento com menos horas trabalhadas por empregado e dois dias de descanso por semana. Isso pode gerar a necessidade de novas contratações, mas também representa aumento de custos, especialmente para as micro e pequenas empresas.
Por isso, embora exista uma expectativa positiva para as vendas e para as vagas temporárias, ainda não sabemos qual será o impacto real da nova jornada sobre a geração de empregos. Algumas empresas poderão contratar mais, enquanto outras poderão reduzir horários de funcionamento ou adiar contratações para conseguir absorver os novos custos.
Bahia Econômica – Em 2027 inicia o processo de transição da reforma tributária. Como a ACB está vendo esse processo?
Isabela Suarez - A ACB entende que o Brasil precisa de uma reforma que traga simplificação real, maior transparência e segurança jurídica. No entanto, esses resultados ainda precisam se confirmar na prática. Não basta substituir tributos se, durante a transição, as empresas enfrentarem mais burocracia, custos e insegurança. Por isso, acompanhamos esse processo com cautela, especialmente em relação aos impactos sobre as micro e pequenas empresas.
O Simples Nacional foi preservado, mas, a partir de 2027, as empresas poderão manter a CBS e o IBS dentro da guia única ou optar pelo recolhimento desses tributos pelo regime regular. Essa escolha terá consequências sobre a formação de preços, o fluxo de caixa, o aproveitamento de créditos e a competitividade, principalmente para os pequenos negócios que vendem para outras empresas.
Além disso, será necessário adaptar sistemas, notas fiscais, contratos e processos internos. As grandes empresas geralmente possuem estrutura técnica para essa transição, enquanto os pequenos negócios dependem mais de orientação e podem sentir proporcionalmente mais os custos de adaptação.
Por isso, a ACB está preparando uma série de ações de orientação e capacitação para os nossos associados, com o objetivo de traduzir essas mudanças e ajudá-los a tomar decisões de acordo com a realidade de cada negócio. A reforma precisa resultar em simplificação também durante a transição, sem criar uma nova camada de custos e burocracia justamente para quem possui menos estrutura para absorvê-la.


