NYT RETRATA FLÁVIO BOLSONARO COMO FUGITIVO E CRIMINOSO EM MATÉRIA


Foto: Reprodução/The New York TimesA primeira entrevista de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após deixar o Brasil teve um resultado diferente do que aliados do senador anunciavam. Publicada nesta quinta-feira (5) pelo jornal americano The New York Times, a conversa de 75 minutos com a jornalista Ana Ionova, em Miami, expôs divergências entre a versão apresentada pelo parlamentar e informações obtidas pela própria reportagem com autoridades dos Estados Unidos sobre sua chegada ao país.
O encontro ganhou ainda mais repercussão por ocorrer poucos dias depois de Flávio acusar a TV Globo de negar a ele o direito de resposta no Fantástico. O senador havia aceitado conceder uma entrevista à emissora, mas impôs como condição que a conversa fosse exibida na íntegra, sem cortes e sem temas proibidos. A Globo não aceitou os termos e seguiu com a reportagem sobre a saída do parlamentar do Brasil, exibida em 1º de novembro.
Na ocasião, Flávio afirmou que a emissora estava com medo de ouvi-lo e anunciou que conversaria com veículos nacionais e internacionais, também sob a condição de não haver cortes ou restrições. A entrevista ao New York Times foi uma dessas conversas e acabou colocando em evidência pontos que o senador preferiu não esclarecer.
NYT aponta participação da Casa Branca na viagem
Um dos principais momentos da entrevista foi a divergência sobre como Flávio conseguiu deixar o Brasil e chegar a Miami, após percorrer cerca de 8 mil quilômetros pela América do Sul. Questionado sobre a viagem, o senador afirmou que organizou o deslocamento por conta própria, ao lado da esposa, e negou ter recebido auxílio de autoridades ou governos estrangeiros.
"Foi tudo por minha conta. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo", declarou.
Ao ser questionado sobre os detalhes do trajeto, Flávio se recusou a explicar como conseguiu atravessar as fronteiras e chegar aos Estados Unidos.
"Como cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo comigo", afirmou.
A versão, no entanto, contrasta com informações obtidas pelo próprio New York Times. Segundo autoridades americanas ouvidas pelo jornal, um funcionário da Casa Branca providenciou o avião particular que transportou o senador até Miami. A entrada da família nos Estados Unidos também teria sido autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump.
A reportagem mencionou ainda que um assessor próximo do presidente argentino Javier Milei encontrou Flávio em um aeroporto durante sua passagem pelo país. Mesmo diante das informações, o senador manteve a negativa sobre a participação de governos estrangeiros.
"Pode ter havido torcida, mas nada além disso", declarou.
Conversa com Jair Bolsonaro e temor de prisão
Durante a entrevista, Flávio também relatou os acontecimentos que antecederam sua saída do Brasil, após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições, em 25 de outubro.
Segundo o senador, a decisão de deixar o país foi tomada depois que recebeu uma ordem judicial para entregar seus passaportes. Ele contou que estava saindo do condomínio onde Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar quando o pai o chamou para uma conversa reservada.
"Ele olhou nos meus olhos e disse: 'Você já sabe aonde eles querem chegar com isso, não é?'", relatou.
Flávio afirmou que respondeu estar preparado para o que poderia acontecer.
"Pai, eu já sei. E estou preparado, sei o que tenho que fazer", teria dito ao ex-presidente.
Em seguida, segundo sua versão, deixou o local.
"Virei as costas e fui embora", acrescentou.
O senador negou que a conversa tenha envolvido um plano de fuga. Disse que decidiu partir porque acreditava que poderia ser preso caso permanecesse no Brasil.
"Já sei que o desfecho final será minha prisão", declarou.
Flávio é investigado em procedimentos relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, mas, conforme o relato apresentado na entrevista, não havia sido formalmente acusado de crimes nesses casos. Ele nega irregularidades e afirma ser alvo de perseguição política.
Senador volta a questionar resultado das eleições sem apresentar provas
Outro tema abordado na conversa foi a insistência de Flávio em contestar o resultado das eleições presidenciais. O senador afirmou que a vitória de Lula seria "matematicamente impossível", mas não apresentou provas de manipulação dos votos.
O New York Times contextualizou as declarações e destacou que o próprio Partido Liberal, legenda de Flávio, reconheceu o resultado eleitoral. O jornal também lembrou que as acusações de fraude nas urnas eletrônicas já haviam sido rejeitadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que observadores internacionais atestaram a regularidade da votação.
Questionado sobre a ausência de provas, o senador reconheceu que suas afirmações se baseavam em suspeitas.
"Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado", disse.
Uma das principais reclamações de Flávio foi a prorrogação do horário de votação em determinadas seções eleitorais. Ele sugeriu que a medida poderia ter beneficiado Lula. A reportagem, porém, destacou que a extensão do horário havia sido solicitada pelas duas campanhas, diante de problemas provocados por chuvas e atrasos no transporte público.
Segundo levantamento citado pela imprensa, a prorrogação afetou aproximadamente 34 mil votos. Lula venceu a eleição por uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos, número muito superior ao total registrado no período adicional.
Apesar de insistir nas acusações, Flávio reconheceu que dificilmente conseguirá reverter o resultado.
"Sei que isso não vai levar a lugar nenhum", afirmou ao comentar a possibilidade de contestar a votação.
Em seguida, resumiu sua interpretação da derrota:
"Perdi para o sistema."
O senador também criticou medidas econômicas adotadas pelo governo Lula durante a campanha e afirmou que o presidente teria sido beneficiado por gastos públicos e pela mobilização de apoiadores nas redes sociais.
Flávio agradece a Trump e não descarta nova candidatura
Apesar de negar que tenha recebido ajuda de governos estrangeiros para deixar o Brasil, Flávio agradeceu a Donald Trump pela autorização para permanecer nos Estados Unidos. O senador, a esposa e as duas filhas receberam uma autorização migratória que permite à família ficar no país por pelo menos um ano.
Durante a conversa, ele também comentou a decisão de Trump de não reconhecer formalmente sua alegação de vitória nas eleições brasileiras.
"Ele não tomou partido, o que é a coisa certa a fazer", afirmou.
Flávio disse que ainda não decidiu onde a família vai morar e que espera que a mudança não seja definitiva.
"Vou precisar seguir minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por enquanto", declarou.
O senador afirmou que pretende continuar participando da política brasileira à distância, mantendo contato com aliados e defendendo suas propostas. Questionado sobre uma eventual nova disputa presidencial, não descartou voltar a concorrer.
"Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente", afirmou.
A entrevista ao New York Times terminou com versões distintas sobre a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. Enquanto o senador sustenta que organizou a viagem sem auxílio de governos estrangeiros, a reportagem atribui a autoridades americanas a informação de que a Casa Branca participou da organização do transporte até Miami. As declarações sobre fraude eleitoral também foram confrontadas com dados e informações que contradizem os argumentos apresentados pelo parlamentar.


